De que são feitos os sonhos

Não. Os sonhos não se desenham nas nuvens. Nem o paraíso é o sítio onde pertencem. Os sonhos fazem-se e cumprem-se nos dias que vivemos. Entre o sol e a lua. Entre o querer e o não querer. No antagonismo dos sentires que dentro de nós cohabitam. Nas histórias de que se faz uma vida, passo a passo.

Ás vezes de portas fechadas. E de recuos ou travessias por caminhos que nunca nos convidaram. De entradas inesperadas por lados traseiros e escondidos. Por sitios de sombra.
De desvios apertados que nos fazem contorcer e encolher.
De recusas. De impedimentos abruptos que tolhem o passo. De dores inimagináveis.

E o que parece vulgar. E o que se constrói pesadelo. Nasce num sonho, gerado dentro de nós pelo tempo que lhe for preciso.

Small things

Coisas pequenas do tamanho imenso da alma de quem as pressente.
Gestos perdidos, ocasionais, simples, expontâneos.
Um "não" agora, para muitos "sins"que nunca se ansiaram e surpreendem.
E o caminho feito de pequenos passos, a cumprir-se. Nunca como se sonha, mas como deve ser.
Num remoinho de pequenas coisas a fazerem-se grandes.
Um sorriso que ilumina o dia. Uma palavra que conforta. Uma mão que ampara. Um ouvido que escuta. Uma voz que serena. Um olhar que nos lê e entende.
E a vida cheia de coisas pequenas, que a fazem maior e mais completa.
Como se em cada pequena coisa se encontrasse a verdadeira essência de todas as coisas.
E a razão de todas elas fosse afinal tão pequena assim. E simples, como o são as coisas que julgamos pequenas.
Coisas pequenas com o tamanho que lhes queremos dar.

D'Amizade

Magoou-a de ferida aberta. Retorcida, moída, escancarada. Aos olhos de todos. Sem dó.

Sem contar, apanhada no meio duma tempestade que nascera em coração alheio, dobrou-se na dor sentida. Num turbilhão de emoções, afunda-se no buraco que sente crescer em si. E cai em rodopio, numa tontura sem fim. Nos olhos agora doridos não passa a luz. Uma névoa cerrada devolve-a á estranheza dum golpe assim. Como? Porquê?
E as respostas tardam, porque não as há. Só a maldade pura sustenta um golpe assim. E lhe dá forma sem razões.

Sente-lhe o sorriso cravado nas costas. Os olhos, vigilantes, nos gestos que enuncia. Á procura duma mulher derrotada. Em busca da sua vitória.

E é aí, onde lhe procuram a fraqueza, que vai buscar a força. Uma força indomável. Maior que o seu próprio tamanho. Maior do que alguma vez pensara poder ser.
A força de continuar a ser quem é. Direita, de pé e cabeça erguida, como se nada a pudesse perturbar. Dentro de si tudo pode acontecer. Ele nada testemunhará.

E a raiva... E a revolta... E uma sensação de injustiça... E a dor incontrolada a crescer dentro dum peito que não cresce ao tamanho que lhe é exigido!
Só a indiferença, o desprezo e a essência do que transporta em si são armas neste combate surdo.

É nas palavras amigas que encontra apoio. Que vê como a vêm. Como ela se julga ser.
É na solidariedade. Na oferta pronta para uma guerra que não quer fazer, que reencontra os amigos guerreiros, de que não dava conta.
Num ninho construído de mil gestos e palavras, que reencontra a paz.
No buraco em que se despedaçara encontra outras luzes e um conforto a que estava alheada.

Não tinha perdido nada quando foi atingida. Foi a prova que nunca tinha procurado, de que nunca estaria só.
Desta ferida com que ele a marcou, resta uma tatuagem forte e eterna.
Da amizade que se constrói sem se saber. Dos amigos que transporta com ela, sem pedir.

E forte, serena como nunca, enfrenta-o segura. E a quem vier. Da mesma forma. Em paz!

Seria em ti o principio

Ilustração do meu amigo Pedro Nogueira das Margens Confluentes- The Peblle
Há coisas que não se explicam de forma alguma. São coisas que vão para além dos nomes.
As palavras mancham-nas. As vozes alteram-nas. Os silêncios perturbam-nas.
Há coisas que só se sentem. Sem mais.

Há sitios onde tudo parece acontecer naturalmente e em harmonia. Como se não houvesse outras formas. E tudo fosse simples. E a lisura existisse. E mesmo as coisas ásperas fossem macias e não causassem arrepios. Há sitios assim.

Há pessoas que mesmo longe, estão perto. Que nos ocupam sem tirar espaço. Que nos enchem vazios inimagináveis. E nem sabem que o fazem. Cuja lembrança nos desperta sorrisos. E que sabem como nós. Da mesma maneira. Sem esforço. Como se houvesse um qualquer laço invisivel, uma qualquer ligação... que não prende, mas liberta!

É de ti que falo , sim. Do que não sei traduzir em palavras. Do que só sei dentro de mim num espaço sem línguas que o mundo conheça.
Mas sei que se um dia fossemos chão... Tu um seixo e eu areia em leito de rio, reencontrar-nos-iamos na mesma sintonia. Só poderia ser assim. Em todos os tempos e de todas as maneiras.
Ver-te-ia nas tuas brincadeiras que acalmaria nas quedas e tropelias. Cansado um dia, recolher-te-ia em meu manto e seria em ti o principio para novas vidas longe e sempre dentro de mim.

É isso que quero ser agora e sempre: O principio em ti.
O principio dos tempos, o inicio de todas as coisas.
Quando ainda há todo o tempo para que tudo se faça.
Quando tudo é ainda possível e nunca é tarde.
Ser forma de veres as coisas sempre novas, de diferentes perspectivas e em renascida esperança.
Como se cada dia, fosse sempre o primeiro e a força para o enfrentar, sempre, eternamente renovada.
Assim, genuinamente inocente, pelo tempo que te for dado.

Nela...

Como se tudo fosse novo ainda. E o tempo... Nunca tivesse existido.
Nem as coisas que o tempo traz. E pendura a esmo em cantos que um dia percorreu.
Como se nada aí tivesse ficado.
Vive cada dia como se fosse o primeiro. Num espanto de dor ou alegria que desconhece verdadeiramente. Sem matriz. Como se não houvesse memórias ou tempo para as construir.
Na pressa da vida que teima em fazer.

Sabe de si só. Do sitio que habita. De quem a precedeu. Nada mais.
E nem a si conhece. Nem em si se ampara. Estranha o que sente. Não entende. O medo, o vazio, a tristeza que por vezes se instala... e a vontade de se alongar em alguém. Que não vê. Que não a vê!
Sonha o abraço que imagina colo em alguém sem rosto, nas noites que lhe restam.
Lê as estrelas á procura dum rumo que imagina existir. Não sabe para onde, nem para quê.
Uma dor aguda no peito, desperta-a. Não sabe de onde lhe vem tal dor. Não reconhece a cicatriz que agora vê. Não sabe como lhe foi plantada. Nem sabe como a arrancar.Tem medo. Corre para fora de si.
Vê-se trancada. Sem chaves. Sufoca. Estende os braços para ninguém.

Ao fundo, na nesga da noite, a luz. O ar.
Um esforço maior. Um espasmo. Um choro, um grito. A vida!
Tanta porta para abrir... Tanta para fechar!
E a correria do tempo ou a pressa que leva, que não a deixam descansar!
E o medo de não ter ninguém e de nunca poder parar.

Como lhe apetecem passeios curtos num espaço a inventar. A luz. A paz.
Um tempo sem tempo.
E não precisar de nada mais. Nem de ninguém.

Abraçar dum só gesto, duma só vez o mundo e a vida e bastar-lhe isso!

The secret

Não é mais um segredo. Agora partilhado será de cada um a decisão de o por em prática. No fundo, a cada passo e decisão nossa, não podemos deixar de pensar. Desta forma, tendo a consciência da importância do que pensamos, podemos com certeza condicionar e determinar melhor o que queremos construir. A pensamentos positivos!

Gosto de gostar

Gosto de gostar. É a unica coisa de que tenho certeza.

Da empatia que sinto nos outros. Da sinfonia das estrelas, do mar e do vento.
Do arco-íris e todas as outras cores para além dele. Dos contrastes, dos opostos, das combinações dificeis.
Da chuva, do tempo triste. Do Outono. E a natureza em mil cores.
Das outras estações também. Do frio que convida á lareira. Do Sol a renascer em tudo quanto toca. Dos passarinhos, dos ninhos...

E as memórias? Tocadas em momentos que julgamos apagados?
As que nos dão sentido. E nos fazem perceber como somos. Nos agarram á vida, á terra... Mesmo em voo. Que como um farol, nos mostra a que lugar pertencemos.

Gosto de dar. Quando dou sou inteira. Sou em mim e nos outros.
De receber. Coisas simples. Sorrisos.
São energia pura. Adoro despertar sorrisos. Sinto-me poderosa. Como quando os recebo.
Saber que precisam de mim e que faço a diferença. Sabe-me bem.
Saber-me cor num mundo cinzento em alguém.

Gosto de ser a calma e a paz no coração dos que passam por mim.
De ser amparo, colo e aconchego...

Dói-me não ser capaz de gostar. E corro e procuro sempre razões para gostar.
Seja onde for e como for.
Importante mesmo é fazê-lo. E gostar de o fazer.
Até porque, gosto de gostar!