Sei

Sei que partirás um dia.
De te perder não tenho medo. Porque teria?
Afinal nunca me pertenceste. Só é meu o que recordo de ti. E isso não mo levas nunca.
Depois, conheço-te os sonhos viajantes. A espera de coisas maiores e o medo de teres só o que julgas ter.
Não basta nunca o que te chega ás mãos. O que descobres e sentes...
E eu?... Sou parcela do todo que está para vir.

Por isso um dia sem me dar conta, estarás para lá dos sonhos em que te criei.
Na tua ausência serei outra. Como o sou sempre distante do que amo.
Procurarei alivio num lado inverso de mim. Talvez nem te espere mais. Nem o queira.
E seja outra em alguém que não conheço e nem suspeito.

Mas até que te vás, estarei e serei o que sou agora. Tua. Até que partas. Porque o farás.

Sei. Preferia não saber.

Não

Não, não me despedi de tanta coisa que em algum tempo deixei de te dizer.
Sussurei-o ao mar em todas as manhãs que não te sentia.
Sei que embala os meus monólogos na espuma branca que carrega na ponta das ondas.

Um dia surpreender-te-á, beijando teus pés na areia molhada. E quando se recolher deixará escrito tudo quanto me ouviu.

Saberei se me ouviste, quando um dia, em vez de visitar o mar, acordar ao teu lado.

Ensaio

Hoje não usaremos as velhas palavras. Aquelas que de tanto serem ditas perderam já a cor e o cheiro.
Hoje ensaiaremos outras. Primeiro em surdina, porque lhes pressinto a vergonha.
Não a vergonha por serem feias, tristes ou estranhas... Mas a vergonha de não te saberem ainda.
Serão rubras de espanto ao ouvirem-se. Darão as mãos, primeiro num toque suave e fugidio. Depois dum breve arrepio reconhecer-se-ão. E num espaço vazio inventado por nós, dançarão á roda das coisas por dizer.
E em vez da palavra antiga que um dia foi desejo e não se fez verbo, sentiremos em nós a coreografia em sons e gestos que a palavra, agora nova, sabe viver.

Esta que agora inventei, di-la-ei dentro do teu corpo. Só tu a saberás e poderás recriar pelo tempo da sua eternidade.

A casa


A casa com que ela sonhava não tinha portas, janelas nem mesmo paredes.
E foi assim que a construiu. Num sitio de sol, árvores e rios a correr.
Em cima dos quatro pilares ficou um telhado de vidro para espreitar as estrelas e o céu quando dormia.
Com o tempo houve quem se juntasse a ela. Gente que com ela falava das coisas simples.
Gente que ia e vinha quando tinha de o fazer. No meio de todos e á vista de quem passava, espalhavam-se os risos e os afectos. Vivia-se a calma e a raiva dos dias. Apagavam-se as lágrimas no calor dos sorrisos.
De voo em voo ficavam as marcas e as histórias que sobreviviam a quem dali saísse. Para voltar quando quisesse.
Foram muitos os passantes. Muitos os que ficaram. E muitos os que de longe viam e cobiçavam.
E nunca ficaram a saber. Porque achavam que já sabiam tudo. Comentavam entre si o que pensavam. De quando em vez albergavam-se debaixo daquele tecto. Estranhos a tudo, habituados ás casas escuras onde viviam, espalhavam as dúvidas dum viver assim.
Em pouco tempo havia quem atirasse pedras que feriram quem por lá andava.
Foi quando ela ergueu paredes. E mesmo assim, deixou aberturas para a vida entrar.
Todos podiam lá ir e de lá sair. Mas desconhecendo o que encontrariam alguns passariam ao lado. Poucos se atreveriam a passar a barreira que ela erguera.
Quem quisesse julgar, que o fizesse. Do lado de fora das entradas que ainda deixara.
Entradas que um dia fechou com portas. Não podia deixar passar a tristeza, a mágoa, a afronta e toda a dor que vinha também.
Deixou o sonho que tivera, para se proteger. E proteger os que reunira junto de si.
Na sua casa outrora escancarada, abria-se agora, só para o mundo daqueles que a pouco e pouco conquistaram um espaço que lhes dava sem reservas. Fechava-o para quem não podia entender.
E mesmo assim via o mundo e prolongava-se para além dele, nunca o deixaria de fazer. Porque as portas desvendavam segredos a quem os soubesse entender e continuariam a abrir-se ao som das melodias que dentro de si bailavam.
E a dança da vida, e com quem ela dançava em liberdade, nunca a deixaria morrer dentro de si.

A carta

Incomodavam-na os lugares anónimos. Os sítios sem cheiro de gente e alma de quem por lá passa. Faziam-na querer nunca lá ter passado e davam-lhe uma tristeza que não entendia nem sabia acalmar.
Então para onde quer que fosse e fosse qual fosse o tempo que aí estivesse, plantava coisas suas no espaço á sua volta. Ás vezes bastava uma flor que encontrasse na sua passagem. Um ramo de qualquer coisa que encontrasse abandonado. Como se ao dar-lhe casa estivesse também a ganhá-la. A pouco e pouco as coisas tomavam os seus contornos e prolongava-se para alem de si com uma leveza que lhe fazia falta.
Para ali, levara consigo, numa caixa que um dia abrigara um par de sapatos, objectos que há muito a acompanhavam. Pedaços de vida que a fizeram ser o que era.
Naquele dia, deixara-se ficar sózinha. Precisava de o fazer. Poderia assim parar um pouco, olhar-se e perceber como estava tudo á sua volta. O silêncio que ficara quando todos saíram, apaziguou-a. Estar assim fazia-lhe sempre bem.
Olhou á sua volta e decidiu vasculhar e ordenar as suas coisas. No quarto pequeno, espalhou tudo sem dó. Não havia gaveta que ficasse ocupada. Peça a peça, tudo foi retomando o sítio, mesmo que fosse já outro, numa reorganização que urgia fazer.
Tudo tinha um sentido que vinha de dentro de si. Tudo ganhava uma nova dimensão assim.
Deixou para o fim a caixa de sapatos que um dia forrara e transportava os seus "segredos".
Um alfinete que pertencera á unica avó que conhecera, botões enormes, forrados a veludo preto dum casaco vermelho de fazenda que tivera em miúda, fotografias gastas de gente que sabia ter sido da família e de quem ouvira histórias...
Coisas que nada significavam para os outros. Sabia.
No fundo um papel dobrado em quatro, o mais importante, amarelado e com os vincos a fazerem aberturas que ameaçam a sua integridade. Desdobrou-o com cuidado e abandonou-se á leitura. Era a última e agora única testemunha da existência daquele homem que ainda habitava dentro dela. Já sabia de cor o que agora lia, mas naquela altura tudo lhe parecia novo e podia regressar ao tempo em que ele tinha existido. A um tempo que não era de saudade mas de alegria...
Absorvida não se dá conta do tempo até que surpreendida pelo abrir da porta principal, arruma a carta ao som dos risos que se aproximam.
Era tempo de regressar e ir ver o que se passava com os colegas que partilhavam o apartamento consigo. Olhou para o quarto, escondeu os últimos vestígios da sua viagem e foi ter com eles.
No ar ficaram os risos de quem ainda teria muitas marcas a pôr na vida. Os dela também.

Paixão

Costumavam fazê-lo sempre que a noite se deitava, deixando no ar as estrelas e uma lua qualquer.
Escutavam o silêncio a entranhar-se nas coisas e a abrir espaços para as conversas que semeavam no passear do tempo, agora só deles.
No Inverno era á lareira que tudo acontecia. Ficavam embrulhados numa manta e a olhar o fogo enquanto bebiam um vinho branco que lhes adormecia o cansaço e os deixava a divagar.
Naquele dia ele preparou dois gins com sumo de laranja. Era Verão, estava calor e a varanda foi palco. Dali olhavam as luzes na cidade que se via ao longe e a ponte que deixava adivinhar o rio.
Ele atirou-lhe com uma pergunta que já há muito tempo andava para lhe fazer, como se precisasse dessa peça para completar o puzzle que dela ia construindo.
Ela não estava á espera. Não daquela forma e naquela altura.
Qualquer bebida, mesmo que em pequena quantidade, tinha o dom de a entorpecer e a deixar a flutuar numa suave tontura. Mas a pergunta que ele lançou, caída num silêncio que se fechou, fê-la virar para ele ainda sem saber o que responder.
Soletrou-a, tentando ganhar tempo e apoderar-se da resposta para ela.
Queres então, saber o que mais gostaria de fazer na minha vida e em contrapartida a pior coisa que me aconteceu?
Sim, respondeu-lhe, e dou-te todo o tempo que quiseres. Também eu farei a mesma reflexão. Mas queria saber isso de ti.
Viu-a mergulhar no silêncio e pressentiu-a a olhar para dentro de si. Sabia que ela não se esquivaria á resposta. Nunca o tinha feito a coisa nenhuma. Esperou até que a ouviu balbuciar exprimindo um "não sei quê de coisa nenhuma". Mas a pouco e pouco as palavras começaram a crescer.
Não, nunca de nada se tinha arrependido. Do mal, do bem, da tristeza, da alegria, da dor ou do conforto. E tudo o que fora mau em algum tempo se acabara por mostrar bom.
Não sabia se era a sua capacidade de olhar para lá das coisas e pondo-se de fora ter uma melhor e mais ampla visão. Sentia até que tinha da vida o que ela lhe podia dar.
Coisas más, a pior? Se com tudo tinha aprendido e crescia...
Se alguma vez fora magoada, sofrera ou se revoltara, tinha tido não sabia como, visto e sentido o reverso da medalha. Por cada mal que lhe tinha vindo, tivera um bem maior.
E que assim como não se arrependera também nunca deixara de fazer o que quisera. Com vontade, empenho e paixão...
Ele seguia-a atentamente, sorvendo cada palavra, sentindo a par com ela. E quando ela falara de paixão, sorriu.
Sim , esta era a mulher que ele tinha dentro de si. Uma mulher paixão.
Era este sentir que lhe dava força e lhe punha o brilho nos olhos e o sorriso nos lábios. Que a fazia ir á luta, anestesiada para a dor. Pronta para tudo. Testemunhou-o.
A paixão era a sua maior força e também a sua maior fraqueza. Por isso tantas vezes se despia dela para sobreviver. Depois então, embarcar em novas paixões.
Limpou-lhe uma lágrima que teimou em cair. Conhecia-lhe as memórias que a faziam sentir assim. Não as queria vivas. Queria-as exorcizar.
A paixão, sussurrou ela e um soluço comeu-lhe as palavras diluidas nas lágrimas que deixou cair.
Ele abraçou-a e sentiu o seu corpo a esboroar-se a pouco e pouco no enlace do abraço. Viu-lhe o abandono do corpo num sorriso que ela tentou esboçar. Havia sempre nela um sorriso, mesmo trémulo.
A paixão que tantas vezes a deixara caída, era também a sua razão de vida. Na entrega a que se dava, mesmo nas pequenas coisas.
Encostados um ao outro, olharam as estrelas, sonharam com o som do mar no fim do seu rio e ficaram assim em silêncio, até que ela adormeceu.
Pegou nela com mil cuidados, e ao seu colo, levou-a para a cama. Ficou a vê-la dormir.
Soube, teve a certeza que a amaria sempre e cada vez mais.
E um dia lhe traria a paz. Aquela com que ela sonhava há muito e de que tanto precisava.
Realizar-lhe-ia um sonho que sabia pertencer-lhe.

Momentos

Há momentos em que o sentimento acorda dentro de nós. Um qualquer, sem hora marcada.
E na surpresa enfrentamo-lo pequeninos. Por isso tudo nos parece tão grande. Na dor, na saudade, na solidão.
Porque o nosso tamanho nunca é maior que tais dores. E elas como gigantes apoderam-se de nós.
Mas um dia... um dia batemos-lhes o pé!
Porque dentro de nós cresce sem parar uma alma dum tamanho sem medida!