O teu sabor

Há coisas que não levantam poeira nem aragem de tão leves serem.
Que são como o ar que respiramos no meio do mato.
Com o cheiro ás coisas boas da infância e lembranças de piqueniques com jogos de esconde-esconde á mistura.
Assim como acordar com a luz do sol todas as manhãs quando o sono já se foi e apetece pular da cama.

Essas coisas têm o teu sabor.

Um sabor que não precisa de crescer em nós, nasce connosco.
Como se fosse um radar. Assim que se encontra igual, sabe-se que se está bem, reconhece-se.

Lembras-te quando as palavras se atropelam a dizer o mesmo ao mesmo tempo?
E quando a gargalhada nasce sem saberes ainda o que te vou contar?
Ah! E quando as minhas lágrimas não caem, amparadas no dique dos sorrisos que me plantas... Não posso esquecer.

E tinha de ser... Olharmos na mesma direcção e vermos as mesmas coisas.
Querer fazer doutra forma e ser igual. Como em reflexo. Num espelho perfeito num dia de luz sem igual.

E como eu gosto do teu sabor!

Encostada

A porta estivera sempre encostada.

Pretendeu durante muito tempo que atrás dela e para sempre ficaria tudo o que não pudera concretizar. Fizera-se força e dissera para si que tudo acabara atrás da porta que deixara de propósito assim.
Virara-lhe as costas e avançara. Pensava que era capaz. que era assim que teria de ser.
De quando em vez sentia-lhe as correntes que traziam o desconforto das coisas que tinha deixado sem viver.
Era quando se recolhia no arrepio que lhe corria o corpo apalpando-lhe o vazio que ela teimava em desprezar.
Plantava-lhe sonhos fugazes. Como se pudesse fazer de conta de que nada aí tinha tido lugar.
Como se nada ainda aí existisse.
E uma porta encostada num lado qualquer da vida deixasse de ser o que era.
Como quando era criança e fechava os olhos. E desaparecia.

Neste terreno sem pousio nem descanso nada teria vida. Nunca.
Tudo teria de tomar o seu lugar. Percebê-lo. E o que tivera inicio teria de ser finalizado.
Num lugar com o seu nome e feitio. No seu lugar.

Era já tarde, a tarde dum dia cheio das coisas surpreendentes que os dias trazem, quando a porta se escancarou.
O espanto foi a primeira coisa que se lembra de ter. Não da porta se ter aberto.
Mas de ser ele a abri-la. Como se nunca tivesse estado atrás dela. Ou ausente.
Olhou-a com olhos de ainda há pouco e recomeçou a conversa na virgula que tinha ficado pendurada.

As promessas de amor eram as mesmas. A paixão continuava acesa.
Olhou-o incrédula. Estremeceu. Surpreendeu-se por continuar de pé porque as forças lhe fugiram sem destino. Foi quando do coração cresceram braços, aqueles que a razão não conhece, e sem mais nada decidiu dar rega á sementeira.
Durante aquele tempo todo só aquele sonho tinha criado raiz e alastrado nela.

Pensou, apesar de tudo, por quanto tempo estaria a porta aberta. Quando a voltaria a encostar ou se finalmente a fecharia.

O vazio

Era á hora em que todos se deitavam e as luzes se começavam a apagar uma a uma em cada divisão da casa a par com os ruídos normais de quem acaba os dias que o vazio se instalava.
Vinha devagarinho com um ar manso e encostava-se aos lugares ainda quentes, com o cheiro das coisas de todos os dias.

Ela afundava-se na cama, debaixo do aconchego conhecido do edredon de penas, leve e suave, e deixava-se cair num quase abandono. Sentia-se planar, liberta da vida, sem pesos, sem memórias e sem tempos, num voo despido de partidas e chegadas. Num espaço que não existia senão aí. Onde nada e tudo tinha lugar. E tudo podia ou não acontecer.

Porque o vazio não é senão um campo lavrado em ânsia de sementeira.

A minha infância.

Se a vejo ainda aqui, se a ouço, se a cheiro e sinto ainda assim tão presente, só pode pertencer-me agora sem nunca de mim se ter ausentado.
Escondida, sim, numa memória arrumada por não haver tempo no tempo da vida. Mas sempre comigo.

No riso leve, na lágrima fácil, no espanto, na descoberta de tanta coisa!

Nos medos também. Porque ainda não se calaram os medos. Abafados só, camuflados. Porque gente grande não tem medo. Não pode, não deve.

Medo de ficar sózinha, sem colo. De não voltar a ver o que se julga ter. De que nada aconteça como se sonha. Dos silêncios. Das coisas que não se sabem ler. Do que não se conhece ainda.
E no entanto navegar por outros mares sem saber marinhar.

Como quando ensaiava os primeiros passos e as primeiras palavras e o mundo se alargava. E eu com ele.

Inscrita na memória dos sentidos, procuro-a e sorvo-a. Reconheço nela a força que tenho. A raiz do meu querer. Sou o que a minha infância fez de mim.

Cupido,procura-se!

Igualzinho aos que havia dantes. Reboludo, pequenino, com bochechas rosadas e cara de anjo. Asas também, brancas, vaporosas, com aquelas penas sem peso, suaves e fofas que só imaginamos.
Terá de ter um ar inocente, um sorriso maroto e uns olhos muito atentos. Porque este que procuro, terá de saber o que levamos uma vida a aprender.
A visão terá de ser apurada. A pontaria certeira. Sim o velho arco e flecha também são necessários.
Deverá saber ver para além das coisas e das pessoas.
E se tiver capacidade para prever o futuro, ainda melhor.
É que a dor duma seta, a enterrar-se no peito, magoa mesmo. Duma forma inexplicável.
Devia sentir-se uma única vez na vida e os efeitos serem eternos.
Quem fosse atingido, deveria amar sempre da mesma forma incondicional ou em crescendo.
Isso! Deveria ser assim.
Talvez um toque duma qualquer mezinha na ponta da seta o pudesse transmitir... Quem sabe?
Assim, como um virus sem cura!

Amelia


Edouard Locke - Amelia

Sou casulo

Renasço dentro de mim.
Transporto agora promessas germinadas. Promessas de sonhos feitas.
O amanhã. A vida para além do que hoje sou.
Agora estou entre um dia e outro. Entre o que era e serei.

Num casulo por ti plantado.