Presa

 
Posted by Picasa


Um espaço branco dum opaco surdo como se dum muro se tratasse estende-se na frente dela.
De olhos fechados, tacteia-o com as mãos e depois esticando os braços aventura-se perdendo-se de vista.
Encosta-lhe a face, os ouvidos, pressente-lhe os sons.
Fica-se na música do devir que vem a sonhar e lhe emprenhava os sentidos.
Espera.
Nada acontece.
A semente que transporta dentro de si não dá sinal de vida. Árida seca, acanhada.
Escondida a um canto longe dos espasmos dalguma fecundação.
Como se não pudesse nunca mais criar e nada mais pudesse fazer por si só e só seu.
Presa num vazio que anseia por ser palavra e vida.

Para quando o alívio da libertação?
Voar de novo nas asas das palavras feitas verso, feitas cor, feitas magia…

Nas fendas abertas do seu deserto desenhar-se-ão as linhas da pauta onde a música que só ela conhece vai ser escrita. Dentro de si pulsará uma dança ritmada. Nessa altura tudo acontecerá

Falar das coisas

Ás vezes basta falar das coisas para lhes descobrir os segredos.
Tudo se torna mais fácil e transparente.

Dar voz aos pensamentos desordenados que numa roda-viva se amontoam descontrolados torna-se ás vezes difícil e doloroso.
Saem em tropeções as palavras e ás vezes… Nada sai.
É-se dique em sobrecarga.

Tudo parece rebentar até que se alinham na pauta das frases que compomos, quando em descanso, as depositamos no ouvido de quem confiamos.

Tudo então toma sentido.
O que era indecifrável descodifica-se.
Caminhamos agora ligeiros portadores da chave de todos os códigos.
Seguir as pistas é o que temos que fazer.
Agora mais tranquilos.

Ensina-me

Melhor que grandes discursos cheios de palavras que não sei traduzir diz-me de forma simples o que posso fazer com pequenos gestos no dia a dia para fazer tudo ainda melhor!
Criar os hábitos, construir as rotinas, fazer parecer normais e antigos os gestos novos que a pouco e pouco vão tomando raízes nos comportamentos diários de cada um, de mim e de todos.

Ofício daqueles que como tu, sabem um pouco mais destas coisas.
Sei tão pouco... Ensina-me.
Porque eu ainda sei aprender!

Uma luz

Andava assim há algum tempo.
Um tempo já sem conta.
Transportava dentro de si uma fome que nunca se podia saciar e estava aninhada no peito em ferida aberta.
Arranhava-lhe as entranhas e subia-lhe á garganta que secava e a deixava muda.
As palavras não diziam o que sentia.
E dentro de si tudo rugia num barulho ensurdecedor.
E ensurdecia de tão alto se ouvir.
Um concerto desafinado fazia-a manter-se acordada horas sem fim.

Um abrigo, um qualquer porto de abrigo onde brilhasse a luz que a fizesse entender uma tal desarmonia…

Talvez fosse quanto bastasse.

Dói-me

Caminha já sem a noção das coisas, se ainda hoje as teve.
Deambula num desequilíbrio evidente entre o muro – na valeta mais ou menos profunda que agora corre seca – e a estrada que se aperta no passar dos carros.

Há muito que afoga a vida nos copos que esvazia de seguida enquanto debita monólogos que já ninguém procura entender.
Acaba quando o dinheiro acaba. Depois vai para casa ou para outro destino qualquer.
Ás vezes perde o rumo e percorre distâncias quase impossíveis para tal condição. É o balanço do corpo que determina o destino.

A cabeça viajou para outros mundos. Onde não dá conta de si.
Amanhã não se lembrará de nada. E todos os dias são dias de amnésia.
As memórias são voláteis como o álcool que as consome.
Também por dentro as entranhas se desfazem e despedem da vida que um dia viveu.

Vi-o ainda agora. Tinha-o deixado há horas num outro ponto distante. Julgava-o em casa.
Na verdade deixara de pensar nele.
Estava á beira da estrada de calças abertas, talvez acabado de urinar, virado para a estrada, balançando-se, pegando no pénis desnudado á vista de quem passava.
Indiferente.

Eu que ainda tenho memória, não vou esquecer por muito tempo.
Não o que ele fez. Mas o que o fez chegar aí.

Almas gémeas

Há pessoas com quem tudo é fácil.
Pessoas que nos parecem estar predestinadas.
Com quem tudo flui duma forma espontânea e natural como se viesse escrito desde os primórdios dos tempos.
Gravado em mensagem de língua desconhecida e ancestral, quiçá divina.
São como ecos de nós que sem nos repetirem, entendem e prolongam para lá de nós o que somos.
Fazendo-nos maiores e mais esclarecidos. Alimentam o espírito levando e trazendo sustento de forma graciosa e em eterno retorno.
Essas são raras. Aparecem na nossa vida em ciclos que não se anunciam.

Muitas vezes, cansados da monotonia das gentes que se cruzam nos nossos percursos baixamos os braços e deixamos que os olhos se cerrem. Que os ouvidos e todos os sentidos fiquem anestesiados e nos achemos a vaguear como autómatos.
Cumpridores do duro ofício da vida e nada mais.

Até que um despertar aconteça. Ou um qualquer vibrar, uma qualquer sintonia, um toque, uma simples troca de olhares faça tudo renascer.
As palavras trocadas, continuadas, os mesmos sonhos, a mesma voz. A força que faltava, a luz que era precisa acender… A estrada partilhada.

Almas gémeas... Talvez.

Ainda não

Sabia que voltar ali lhe traria algum desconforto.
Mas a vontade de o fazer crescia a cada momento. Era uma saudade quase sem sentido.
Ainda não estava pronta para visitar os lugares que um dia ocupara com prazer.
Faltavam-lhe os sorrisos que estava habituada a distribuir, as palavras que tinha para dar na hora certa… Sentia-se incompleta.

Fazia-o sorrateira. Em bicos de pés, com mil cuidados.
Apagava a sombra e soprava as pegadas levando os vestígios para sítios desconhecidos.

Não podiam dar por si. Agora não.
Só num futuro qualquer onde houvesse alegria.
Onde tudo o que sentia agora fosse só passado, nada mais.