Sede

Fazes-me ter sede.

Não. Não te desculpes. Nem deixes de me fazer sentir assim.
Sedenta.
Esta sede que me nasce do que vem de ti… Preciso dela.
Dá-me vontades de outras coisas que adormeci em mim. Fá-las espreguiçar.
Levanta-as e põe-nas a caminho do tempo que está para vir.

És jardineiro, sim. Destes quereres.
Desfaz-me esta secura.

Sacia-me as sedes com a água que sei, jorrar, de ti.

Grata

Foi nos teus olhos que li quanto me fazias feliz.
No sorriso aberto e nos braços estendidos que vi a alegria que te fazia nascer.

Nesse instante que retenho na memória percebi a dádiva de nos termos encontrado.

Nada entre nós foi em vão. Nada o será.

Ter-me cruzado contigo e com outros como tu fez de mim o que hoje sou.
Eternamente grata.

Pelo que sou e tenho. Pelo que posso fazer!

Por acaso

Já tinha ouvido falar dela. Ainda não a tinha visto.

Naquele dia tinha-se levantado ligeiramente indisposta. Não dormia já há várias noites e decidira tomar uma das suas pílulas. Faziam-na sempre sentir assim. Por isso as evitava. Decidiu sair, tomar ar. Deixar que o vento fresco que corria nessa manhã lhe levasse para longe aquela agrura.

Não se dirigiu ao carro. Apetecia-lhe andar.
Caminhou sem destino, sem ver, sem escutar. Começava a sentir-se melhor.
Já tinha passado, sem se dar conta, pelo cafezinho onde costumava sentar-se e ler as primeiras notícias acompanhada de um sumo de laranja natural.

Quando os pensamentos se atropelavam na sua cabeça, perdia-se de tudo. Mesmo do que a ocupava.

Acabou por parar num sítio que ainda não conhecia. Uma pequena esplanada virada para um jardim. Sentou-se. O coração estava acelerado. Não costumava andar tanto. Retomou a pouco e pouco o seu bater cadenciado.

Ao largo, uma miúda sentada na relva a brincar com uma boneca. Sozinha.
Por onde andariam os pais?

Pediu um sumo como fazia habitualmente.

Uma voz que reconheceu de imediato despertou-a. Chamavam-na.
Virou-se na direcção da voz e reconheceu-o. Começou a levantar-se quando o viu abrir os braços e aninhar-se. Na sua direcção correu a pequenina que vira a brincar.
Deixou-se cair. Colou-se á cadeira. Suspendeu a respiração.
Tinha-lhe dado, a ela, o seu nome.

Á filha que não tiveram juntos.

Como devia ser

Disse-lho logo que pode. Com a urgência das coisas que não podem ser adiadas.

Não queria fazê-la sonhar que seria só seu.
Amá-la-ia como se fosse única.
Mas seria uma entre outras. Outras que amava da mesma forma.

Ela teria somente de se deixar amar. Era só o que lhe pedia.

Disse-lhe ainda que faria tudo por ela. Que com ele estava segura, protegida, amparada. Ele seria o seu ombro quando ela se quisesse deitar nele.

Surpreendeu-se quando lhe sentiu o desapego, o afastamento.
Se lhe dava tudo…. Tudo o que sabia e podia dar… Porque lhe fugia ela?

Não a prendeu. Alargou o laço com que a envolvera e deixou-a ir.
Passou a olhar com saudade o tempo em que nada lhe havia dito.
Não se arrependeu de o fazer mas percebeu que por isso a perdia.

Ela estaria lá. Ele noutro sítio. E seria sempre assim.
Nem um nem outro deixaram de ser fieis ao que eram.
Não houve julgamentos. Nem traições.

Tudo foi como devia ser.

De tempos a tempos

De tempos a tempos dava sinal de si.
Parecia ter-se despedido ainda agora… Retomava as palavras de sempre como se nunca tivessem sido interrompidas.

Promessas antigas faziam-se novas. Acordavam-se sentimentos, desmaiados, em espanto.
O lugar era já outro e tudo permanecia como se não o fosse.

A mesma forma de sentir. O mesmo encanto.
Apesar do intervalo.

Olhavam-se os dois como o tinham feito da primeira vez.
Com a mesma ânsia de se saberem. A mesma vontade de se tocarem.

Ainda, apesar de tanto tempo de permeio!
Era assim e sê-lo-ia sempre.

Esconder-se-ia de novo até não lhe suportar a falta.
Tinha medo do que tanto amor lhe prometia.

O que vier

Havia quem pensasse saber já como tudo acontecia e nunca esperasse outra coisa.
Esses eram os que mais se surpreendiam.

Aos outros parecia-lhes natural a mudança.
Era assim que olhavam as coisas. Com olhos de ver crescer.
Olhos e coração abertos. Atentos e despertos.

Sabiam de quem hibernava. Pressentiam-lhes as metamorfoses.
Sonhavam-lhes as asas abertas, prontas para novos voos.
Sentiam-lhes o vigor e a vontade de o fazer.

Por isso, não estranhavam o que viesse. Sorriam e abraçavam-no.
Preparavam-se para novas viagens. Faziam-se ao caminho.

Consigo levavam só a vontade de navegar. Com quem também o quisesse.
O rumo, fá-lo-ia a caminhada.
Bastava estar avisado, ler os sinais, adivinhar-lhes o sentido.
E que nada os surpreendesse para além da surpresa maior que é viver.

Love me

Love me like a river does
Melody Gardot

Love me like a river does
Cross the sea
Love me like a river does
Endlessly
Love me like a river does
Baby don’t rush you’re no waterfall
Love me that is all
Love me like a roaring sea
Swirls about
Love me like a roaring sea
Wash me out
Love me like a roaring sea
Baby don’t rush you’re no waterfall
Love me that is all
Love me like the earth itself
Spins around
Love me like the earth itself
Sky above below the ground
Love me like the earth itself
Baby don’t rush you’re no waterfall
Love me that is all