Regresso

É aquela batida que o acompanha sempre. Quase não deixa que acabe para a por a tocar de novo. Como um cigarro atrás de outro quando o vício se instala.
Regressa a casa.
Um regresso em que não houvera partida, como se de lá nunca tivesse saído.

Naquele Sul quente empoeirado de poentes laranja a emoldurarem o horizonte.
Sobe-lhe o cheiro a terra acabada de lavar pela chuva mole dum tempo que sem aviso a deita á terra.
Uma outra música, um ou dois pares em abandono. Roupa colada ao corpo, cabelos escorridos sem movimento no balanceio a que a música obriga. Puro contágio.
Ela, esguia, solitária. Entregue ao ritmo que dança com a música e a chuva que não deixa de cair.
Procura-lhe os olhos. Caminha para ela ensaiando os passos e as palavras.
Atravessa uma cortina tecida de finas gotas de água tépidas que descem em névoas rente aos pés ainda hesitantes.
Estica um braço, enlaça-a e rodopia com ela. A melodia que ouve vem do bater do seu coração.

Não há chuva nem música. Não há gente nem poentes.
Há um regressar a casa numa partida que nunca aconteceu nos braços duma batida que o acompanha sempre.

Blues

Outra vez. Tudo recomeçava. Por mais que tentasse tecer novas teias o rendilhado repetia-se como se nada de novo houvesse a fazer.

Nunca acreditara no destino. Ou no que lhe diziam as linhas da palma da mão.
Preferia movê-las ao encontro do outro na carícia feita abraço.
Fazer, com elas, da promessa coisa feita.

Era o milagre do querer e da vontade que a movia. Essa fé a que se entregava.

E perdia-se num ciclo onde tudo parecia não ter fim.
Não fosse a fé…

Recomeçaria até não ter de o fazer. Nunca mais.
E num crochet renovado seria mais e melhor.

Até lá não se deixaria embalar pela batida dolente dos blues que lhe habitavam a alma. Beber-lhes-ia a cadência e alimentaria neles a esperança.

Amnistia Internacional


Basta uma assinatura!

Naquele instante

Olhou-a como se nunca o tivesse feito. Despiu-se de tudo que ela lhe fora deixando. Nunca lhe havia bastado.
Sacudiu-o. Para longe de ventos que o arrastassem de novo até si.
Virou-lhe as costas.

Ela sentiu-lhe um olhar diferente. Penetrante.
Sentiu-se mesmo incomodada. Possuída. Como se entrasse por ela adentro sem permissão.

Deixou-se invadir. Há muito que o desejava.
Que ele o fizesse. Mais ninguém.
Deixou-se ser. Abriu fronteiras.
Não o queria estrangeiro em si.
Ensinar-lhe-ia as línguas do seu país.

Una musica brutal



Música de Gotan Project
Participação de
Chita Rivera e António Banderas

Do filme " Take the lead"

A contorcionista

Tinha formas únicas de ser ágil.
Formas de sentir e estar acrobáticas. Quase impossíveis.
Elástica. Moldava-se com elegância rodeando obstáculos que deixavam de o ser.
Permitiam-lhe bailados em coreografias inimagináveis.
Moviam-na músicas que só ela ouvia num ritmo que lhe pertencia desde que se conhecia.

Havia quem procurasse nela inspiração. Quem procurasse nela saciar a sede.
Perdiam-se nos seus encantos enfeitiçados nos seus gestos.
Desatinados dos rumos vagueavam sem destino.

Alheada de tudo o que á volta dela acontecia, continuava o seu bailado de contorcionista atenta á sua própria evolução.

Da primeira vez

Da primeira vez era diferente. Parecia-lhe tudo possível.
Sonhar era quase obrigatório.
E ela sabia fazê-lo. E nunca desistia de o fazer.
Nem que por vezes acordasse em pesadelo. Que acordasse! Que acordasse...
Estaria viva, recomeçaria.
Tudo seria possível uma vez mais. Até que ela o quisesse.

E haveria muitas primeiras vezes. Sabia-o.
Procurá-lo-ia. Em cada momento.

Serão tantos os momentos ainda para vir!