Se eu morrer amanhã, que me dirás hoje?

E se eu morrer hoje que me terias dito ontem? Perguntas-me de volta.
O que te digo agora e sempre. Gosto de ti. E gostarei até a memória de ti se apagar. Respondo pensando que te calo assim.
Quem gosta assim, dizes-me tu, não se apaga da memória de quem também assim gosta.
Tu sabes, sorrio, e eu também sei.

Mas, sabes, se fosse dono do futuro e soubesse que amanhã não estarias aqui faria tudo o que pudesse levar-te a sentires-te cheia de ti mesma, sem faltar a a ultima cusquice, o telefonema usual da família, a novidade do jornal das oito,a viagem do ultimo dia, tal como qualquer outro dia, com alguém por companhia.
Adormecerias vencida pelo cansaço… serena. Não saberias que o amanhã nunca aconteceria

Apetece-me beijar-te. Posso?
Abraça-me. Guarda-me. Revive-me, Arquiva-me no armazém das memórias para os tempos em que não estarei. Deixa-me fazer o mesmo contigo. Absorver-te.
Não digas nada.

Posso pedir-te um favor? Não te vás. Não ainda.
Porque tal como ontem, hoje não tenho o tempo necessário para te dizer quanto sinto… seria tanto!
E assim sendo, talvez, adiando sempre… jamais morras.
Em mim pelo menos.

E se insistires em partir, dir-te-ei simplesmente, até logo!

O diário

Pedira-lhe um diário. Um relato que um dia partilhassem. E revivessem.

Logo que pode lera-lhe as primeiras páginas com sofreguidão.
Queria saber-se nela.
Ver-se pelos olhos que o fizeram apaixonar-se. Daquela maneira que não percebia.
Das outras vezes tudo tinha sido mais pálido. Agora que conhecia as cores que nunca imaginara existir, viajava extasiado. Numa embriaguez que em vez de lhe adormecer os sentidos lhos despertava ainda mais.

Estranhava-lhe a forma quase seca que ela usava na escrita. Perdia-se dela.
Daquela que o amava como ninguém o tinha feito.
Que descobrira nele um homem que perdera há muito entre a vida que se fez.
Da mulher fogo que fazia no seu coração fogueira.

Perdeu-a. Não soube se por tanto lhe pedir.
Se por tanto lhe querer.

Perdeu-a porque nunca a encontrou.

Os teus olhos

Os teus olhos estavam tristes, apagados.

Fui-lhes testemunha. Queria não o ter sido por tão inútil ser tal olhar.

E tu vagueavas pela casa sem rumo.
O prazer de estar e partilhar o teu espaço com os amigos de sempre já há muito não transparecia no teu rosto, agora opaco.

Mãos nos bolsos, ombros descaídos, ausente por fora e por dentro, habitavas sítios que eu não suspeitava.

Já não cabia no teu mundo. Desiludi-te pela primeira vez e vi bem o que te fiz. O orgulho e a vaidade que tinhas em mim, feriu-se. Tiveste vergonha de mostrar a ferida que te abri quando gostavas mesmo era de mostrar a “tua menina”. Com a ternura dum pai que não tive doutra forma.

Senti que nessa tristeza bailava o desapontamento. Que ela nascia de mim.
Não te pedi desculpa, então. Nem nunca mais.

Partiste cedo demais. Levou-te talvez a tristeza.

É certo que voltaste. Sonhei-te durante muito tempo.
Sempre meu amigo.
Era como se voltasses para mim e só para mim.
Sem tristeza nem saudade.

Guardei-te aí. Com a nitidez que o tempo não consegue apagar quando se ama assim.

Acompanhas-me agora. Como sempre o fizeste.
E é em ti que penso nos passos que dou.
Quero continuar a ser a tua menina e não te desiludir nunca mais.

Lá onde estás, podes falar-lhes de mim. Como eu falo de ti.

Com o coração!

O pretexto

O pretexto foi a troca de olhares. E apeteceu. Ela tinha-lhe a fome sempre insaciada. Agora, mais que nunca presente.
Gostava da forma como ele filtrava o que via. Fazia-lhe ter vontade de andar por lá também. Disse-lho.
Ele sugeriu-lho.

Quando se viram ela deixou as palavras rolar. A pressa de desvendar a magia do sentir, a vontade e o despudor de o fazer eram palpáveis na alegria que o brilho dos olhos deixava adivinhar.

Fazia-o sempre assim. Não se sabia doutra forma.
Não havia máscara que a transfigurasse.

Ele absorvia-a. Só.
Espantava-se na descoberta do mundo dela. Nas suas paixões... Na inocência das suas paixões.
Na entrega que dela emanava. Sem diques nem represas. Livre e fluida.

A doença


Uma qualquer coisa que o prendera há muito instalara-o na porta dum tempo que teimava em não se deixar avançar.
Pesado demais para um corpo que deixara a pouco e pouco desaparecer. Porque tudo desaparecia.
Só o tiquetaque metódico persistia, gotejando sem jeito de se ir.

As vozes que foram gente são agora fantasmas que povoam noites mesmo que o sol as ilumine. Tem-lhes agora medo de tão estranhas se terem feito.

De vez em quando um sorriso assoma-lhe os lábios, agora mudos.
É a presença das memórias que teimam em fazê-lo achar-se vivo.
Logo murcha de tão vago ser. E o olhar que se fixa num ponto sem destino, vagueia á procura doutros esgares.

Porque está neste lugar, não o sabe, já. Perdeu-se a razão na ausência dos que amava.
Nem sabe mesmo que lugar é este. Para quê dar-lhe um nome se não o quer para si? De que lhe valem os nomes se nada lhe dizem?
Se mesmo assim se perde, por não saber mais o que procurar…

E afunda-se, talvez subindo por tão penoso lhe parecer.
Para sempre só.

Dizem que a doença o levou ali.

"Mankind Is No Island"

Tropfest NY 2008 winner, by Jason van Genderen

O oásis existe

Apesar de já nada esperar, fica sempre uma vontade de que algo aconteça.
Para inverter magias perdidas em constantes desencantos.

É um tempo de dunas sucessivas num horizonte sem fim.
Era preciso armazenar para ter agora. Pelo tempo que fosse.
Poder sobreviver á caminhada.
Bastar o dourado da areia. O movimento do caminho a fazer. As pegadas que já se apagaram.

(Um coração não tem duas bossas!
Terá a vontade?)

O oásis existe.