Boa noite meu amor.
Acordou com ele a olhá-la preocupado. Que tremia e os seus olhos não paravam. Sentiu que tinha de a acordar Pressentiu-lhe um pesadelo e não podia deixá-la continuar a deixá-la dormir assim. Ela largou uma gargalhada cristalina e abraçou-o a confortá-lo. Na verdade o sono que tinha, porque sonhava na realidade era uma anedota pegada. Contou-lho de rajada e riram os dois. Do sonho, do engano. Do amor que os unia.
Ás vezes tinham manhãs assim. De outras vezes era só ao abraço.
Em si
Era tarde apesar de ainda parecer cedo para que tudo acontecesse. Era tarde porque o sol se despedia. O laranja se substituía ao azul sem manchas de algodão doce que lhe lembrava carrosséis e música de bailes populares.
Uma tarde a fazer-se noite. E as decisões sem tempo feito a tardarem por estarem longe de ser maduras.
Talvez houvesse um destino igual àquele que fazia as noites acordarem os dias depois de sonos inquietos ou tranquilos ou até de muitas insónias que visitavam as estrelas que ora brilhavam ora brincavam de esconde-esconde. Talvez.
E nem fosse preciso decidir o que já estivesse por si só decidido há muito tempo. Se calhar a viagem far-se-ia onde agora estava. Sem de si arredar pé. E nem fosse preciso atravessar meio mundo, cruzar tanto mar! E para quê, afinal?
Que respostas podia encontrar que não lhe tenham já sussurrado ao ouvido e teimosamente tenha ignorado?
Quantas vezes o que procuras está tão só dentro de ti? Dizia-lhe a mãe.
Dentro de mim? Que sei eu? E vasculhava-se quase em desespero.
Perdia-se na amálgama de tanto querer.
Descobria por vezes que era no silêncio das perguntas que encontrava as respostas.
Que quando nada pedia tudo lhe era dado. Pasmava.
Ao esvaziar-se preenchia-se. Era mais. Melhor. Completava-se.
Era preciso ser cedo por muito tempo, até ser preciso. O tempo dir-lhe-ia a tempo o tempo certo.
Até lá as noites dormiriam, os dias acordariam, as estrelas fariam os seus jogos com quem lhes fizesse companhia.
A vida, essa, acontecia. A seu tempo.
Uma tarde a fazer-se noite. E as decisões sem tempo feito a tardarem por estarem longe de ser maduras.
Talvez houvesse um destino igual àquele que fazia as noites acordarem os dias depois de sonos inquietos ou tranquilos ou até de muitas insónias que visitavam as estrelas que ora brilhavam ora brincavam de esconde-esconde. Talvez.
E nem fosse preciso decidir o que já estivesse por si só decidido há muito tempo. Se calhar a viagem far-se-ia onde agora estava. Sem de si arredar pé. E nem fosse preciso atravessar meio mundo, cruzar tanto mar! E para quê, afinal?
Que respostas podia encontrar que não lhe tenham já sussurrado ao ouvido e teimosamente tenha ignorado?
Quantas vezes o que procuras está tão só dentro de ti? Dizia-lhe a mãe.
Dentro de mim? Que sei eu? E vasculhava-se quase em desespero.
Perdia-se na amálgama de tanto querer.
Descobria por vezes que era no silêncio das perguntas que encontrava as respostas.
Que quando nada pedia tudo lhe era dado. Pasmava.
Ao esvaziar-se preenchia-se. Era mais. Melhor. Completava-se.
Era preciso ser cedo por muito tempo, até ser preciso. O tempo dir-lhe-ia a tempo o tempo certo.
Até lá as noites dormiriam, os dias acordariam, as estrelas fariam os seus jogos com quem lhes fizesse companhia.
A vida, essa, acontecia. A seu tempo.
Pontualidade ou falta dela
Era extremamente pontual. Nervosamente pontual. Tinha um relógio inscrito no ADN. Talvez. E a mania de lhe andar á frente. Sempre. Doíam-lhe os nervos dos atrasos que antecipava aos outros. Doíam-lhe as esperas mesmo sem as ter feito.
Conhecera-a quase por acidente. E de repente sucederam-se os telefonemas que não paravam. A vontade de a ouvir não cessava. Não havia tempo nem hora desadequada para o fazer. Dedilhar o teclado e esperar que ela atendesse. Não importava a espera.
Quis conhecê-la melhor. Convidou-a para jantar. Uma e outra vez.
Uma noite deixaram-se ficar até ao abraço e ao beijo que lhes deu vontade de mais encontros.
Combinaram-nos. Datas e horas.
E o seu relógio biológico julgou-se pressionado. Entrou em alerta.
Afastou-se.
De quando em quando manda-lhe uma mensagem, um beijo em ar de promessa ao que ela responde educadamente. Ás vezes convida-a mas não aparece. Inventa uma desculpa que ela já sabe existir. Não se surpreende. Sabe que ele estará sempre lá mas nunca com ela.
Por vezes irrita-se. Depressa se acalma. Irrita-se porque se deixou amar e amou. Irrita-se porque perdeu sem ter tido.
Hoje voltou a mandar-lhe uma mensagem. Tenho saudades. Ela deixou cair uma lágrima. O namorado perguntou-lhe, que tens? Respondeu-lhe, nada meu amor. Coisas minhas, Faltas de pontualidade. Atrasos.
O namorado encolheu os ombros. Ás vezes não a entendia.
Conhecera-a quase por acidente. E de repente sucederam-se os telefonemas que não paravam. A vontade de a ouvir não cessava. Não havia tempo nem hora desadequada para o fazer. Dedilhar o teclado e esperar que ela atendesse. Não importava a espera.
Quis conhecê-la melhor. Convidou-a para jantar. Uma e outra vez.
Uma noite deixaram-se ficar até ao abraço e ao beijo que lhes deu vontade de mais encontros.
Combinaram-nos. Datas e horas.
E o seu relógio biológico julgou-se pressionado. Entrou em alerta.
Afastou-se.
De quando em quando manda-lhe uma mensagem, um beijo em ar de promessa ao que ela responde educadamente. Ás vezes convida-a mas não aparece. Inventa uma desculpa que ela já sabe existir. Não se surpreende. Sabe que ele estará sempre lá mas nunca com ela.
Por vezes irrita-se. Depressa se acalma. Irrita-se porque se deixou amar e amou. Irrita-se porque perdeu sem ter tido.
Hoje voltou a mandar-lhe uma mensagem. Tenho saudades. Ela deixou cair uma lágrima. O namorado perguntou-lhe, que tens? Respondeu-lhe, nada meu amor. Coisas minhas, Faltas de pontualidade. Atrasos.
O namorado encolheu os ombros. Ás vezes não a entendia.
O tempo
"Le temp qui rest"
Criação original sobre um texto de J.L. Dabadie pour e para Serge Reggiani
No lado errado da vida
Era ela. Só podia ser. Tinha-a encontrado. Do nada. Por mero acaso.Nas palavras que sempre achou que lhe ouviria. Na voz que sabia pertencer-lhe. No sorriso que só ela saberia expressar. Nos gestos que só ela desenharia.
Era ela. Na forma como andava. Como sempre a tinha sonhado.
Aquela e mais nenhuma.
Como se finalmente a resposta a todos os seus anseios se tivesse feito presente.
Deixou o olhar preso nela. Talvez por demais evidente. Dariam por certo conta de tal espanto.
Viu-a dirigir-se a si. Acompanhada. Era João o seu velho amigo de universidade. Que vidas!
Manuel dá cá um abraço! Há tanto tempo. Que tens feito?
Vieram as histórias e as apresentações.
Ela, também desse tempo partilhara algumas vivências. Recordava-o agora.
A semente do sonho que deixou crescer dentro de si.
Dá-nos os parabéns Manuel. Vamos ser pais.
Do resto não se lembra. Abateu-se um nevoeiro. Igual ao que vivera nos últimos tempos confinado aos tempos entre a casa e o trabalho. Num querer sem saber o quê. Num desejo sem objecto.
Talvez a tivesse esperado enquanto terminava relatórios ao computador embriagado pelo som monótono das teclas em noites sem fim.
Esperou-a também no fundo dum copo sentado sozinho no balcão dum bar qualquer sem mais ninguém, fora de horas.
Algumas vezes esperou-a nos braços doutras mulheres que já não recordava por não lhe saberem a nada.
E em milhentas filas de transito, nas caras de quem conduzia quando se dirigia para o trabalho.
Sabia que sempre a esperara… no lado errado da vida.
A morada
A morada, se faz favor!Morada!? Para que diabo, queria ele a morada? Algum dia tivera morada?
Talvez… Quando vivera com a mãe naquela casa herdada dos avós com cheiro a segredos ocultos de geração em geração cheia de regras e obrigações que o levaram a ter medos e vontades de sair cedo.
Foi a Lúcia, uma rapariga cheia de borbulhas e cabelo espigado que o fez sonhar com amor e uma cabana nas águas furtadas, bafientas, forradas a papel de parede debotado a descolar-se teimosamente apesar da maior ou menor quantidade de cola de farinha que se lhe pusesse.
Acordaram um dia enredados num manto de papel empastelado. Foi o primeiro e o ultimo. Separaram-se. Era Verão.
Encontrou a Joana, sardenta de tranças vermelhas. Lembrava-a sempre de biquíni ás bolas cor-de-rosa gigantes. Vivia numa casa de madeira na praia de que cuidava primorosamente. Limpa os pés, não tragas areia para dentro de casa, não te deites assim no sofá, vai tomar banho.
Deixou o amor quente de Verão arrefecer com os primeiros ventos frios do Outono e foi viver para um apartamento pequeno perto do emprego. A Teresa não o incomodava. A princípio achava tudo um pouco desarrumado mas achou que era assim porque o espaço era apertado. Deixou-se ficar.
Precisava duma camisa, tinha-a ela vestida. Procurava uma gravata, usava-a ela como cinto. O pior foi quando procurou as bolachas preferidas e só encontrou as migalhas dentro do pacote escancarado.
No dia seguinte a Teresa nem encontrou o pacote nem o encontrou a ele.
Mudou-se para um hotel. Sim, para um hotel. Tinha tudo o que queria, sempre que queria: cama, mesa e roupa lavada. A companhia procurava-a, comprava e usava como e quando queria.
O emprego não lhe cobriu as despesas. O cartão não lhe cobriu quanto esbanjou. O hotel não o aturou mais. Um dia encontrou a porta fechada e as malas feitas. Foi até ao último bar que ainda o servia. Bebeu até lhe fecharem também a porta.
A morada, senhor polícia?
Pode ser esta?
Dos olhos
Era dos olhos que ela se lembrava mais. Uns olhos que diziam mais que quaisquer palavras.Estavam agora calados. Deixara de os ouvir.
Tantas promessas lhes ouvira e tantas vezes neles embarcara. Viagens para não mais esquecer.
É na sua ausência que os recorda melhor. Como uma qualquer luz no corredor dum passado ainda presente.
Agora fecha os seus para não deixar fugir quanto lembra.
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