Não era a primeira vez

Não era a primeira vez que lhe acontecia.
Nem sequer era de forma diferente. Soava-lhe a “dejá vu”. Devia por isso estar preparada e já nem reagir. Seguir em frente como se nada tivesse acontecido.
Como se passado e presente se confundissem e tudo girasse em eterno rodopio.
Num vaivém incessante.
E sentir-se tonta fosse consequência desta dança quase violenta de tão rápida e inesperada.

Chorava, sim. Sofria também.

Escondia-o sempre que podia. Embora ás vezes a tristeza trespassasse para fora de si no olhar perdido no vazio e na falta do sorriso que pairava perdido nas culpas que sentia morarem em si.

Procurava forças, encontrando razões para ficar bem como estava agora. Sozinha.
No seu mundo. Sem mais ninguém.

Não seria a última vez e era bom que fosse. Faria para que fosse.
Era a promessa que faria a si própria.
Estava cansada de reviver.

Deixa-me pecar!


Fico sem saber o que fazer e como fazer.
Não entendo porque as coisas não são claras, porque se escondem e não se dizem.

Fizeste-me reflectir no que temos. Nesta relação a que chamas namoro. E perdi-me nas rotinas e rituais que não encontro e fazem o que são as relações: Um bom dia, uma mensagem, um toque, um olá, uma carícia, um mimo, um esperar por ti a determinada hora, um saber bem, por te saber lá... Como acontecia ao princípio, lembraste? Quando esperavas por mim para conversarmos de coisa nenhuma. Nessa altura dava-te "luta". E tu a mim.

Agora que te sinto ir, percebo que me fazes falta. E fazem-me falta também esses pequenos nadas.
Sei também que te empurrei um pouco para fora de mim com medo de te magoar. No entanto se eu valesse a pena ficarias.
Talvez não valha assim tanto... Nesse caso farás o que for melhor para ti.
Tudo ficará bem com o tempo.

Agora tenho uma dor no peito que cresce sem razão por não saber o que se passa. Quando nada sabemos deixamos crescer fantasmas dentro de nós. Que são só isso mas metem medo, mesmo que tenhamos a consciência do que são.
Veio-me á cabeça Pedro Abrunhosa " Quem me leva os meus fantasmas?" porque te peço a ti para mos levares.
Não te escondas no silêncio. Fala comigo.
Sei ouvir. Sei entender.
Gosto de ti. É o meu maior pecado.
Deixa-me pecar.

Apaga a luz!

Apaga a luz e dorme!
Ainda não acabara de dizer as ultima palavras da sua oração nocturna, anjo da guarda minha companhia guarda minha alma de noite e de dia. Vinham-lhe á cabeça a imagem do anjo com grandes asas a proteger uma criança com caracóis soltos como os seus e sentia-se já protegida.
Todos os anjos de que tinha lembrança eram bonitos. Nunca poderia ser um anjo noutra vida se ela existisse. Mas uma criança rabina e inquieta seria. Tinha a certeza. Nada a satisfazia. Tudo a fazia ir mais além, descobrir mais e mais sem nunca parar.

Então, ainda acordada?
Aconchegava-se melhor e antes de apagar a luz puxava para junto de si a imagem da santa que era iluminada noite e dia por uma lamparina alimentada por azeite. A velinha cor-de-rosa boiava á sua superfície e espalhava nuances de luz no corpo esbelto da santa. Sim, também as santas eram bonitas e perfeitas como os anjos. Restava-lhe velar-lhe para que não lhes faltasse a luz.
Em troca desfrutava da possibilidade de viajar para outros lugares nas folhas dos livros que abria e devorava quando apagava a luz que tinha de poupar.
Ás vezes quando as histórias acabavam deixava-se ir ao encontro das sombras disformes que criavam personagens nas paredes do quarto até vir o sono devagarinho.
Ali era tudo o que a imaginação a deixava ser. Num tempo só dela.

Calava...

Calava tanta coisa, tanta vez!
E quando tudo acabava sentia que tudo ficava por dizer.
Como se tivesse medo de dizer de mais. De sentir demais. De se comprometer demais…

E depois, nada havia a fazer. Na altura tudo parece normal. Como se tudo lhe fosse devido, a tudo tivesse direito. Nada tivesse de agradecer.
E obrigada, fosse só mais uma palavra inútil.
E gosto de ti, outra.

Agora, fazes-me falta, é a mais inútil das frases.
Porque só na ausência as palavras se fazem presente e urge fazê-las crescer num passado que já nada altera.
E as palavras que não foram ditas, doem ausentes.
Como quem se foi. Como o que se perdeu.


As palavras vestem-nos e despem-nos. Umas vezes demais outras de menos.
Por isso precisamos dos gestos.

Queria!


Queria falar-te de coisas que não se perdessem no bulício dos dias.
Que fossem sempre da mesma cor e a poeira delas não fizesse leito ou demorasse em pousio.
Soprar-lhes-ia a aragem da vida que para longe lhes levaria o cansaço e alisaria as nervuras e assim, sem nenhum atropelo ecoaria o meu sentir de ti.

Até o silêncio acordar


Chegava-lhe ao nariz um cheiro nauseabundo. Não sabia de onde vinha nem o que era. Tornava-se insuportável. Nem o aconchego dos lençóis e o calor que o corpo já tinha a distanciava da náusea que crescia dentro dela.
Fechava os olhos com força e tentava chamar o sono para se afastar daquele lugar.

A pouco e pouco eles chegavam e aninhavam-se no volume do seu corpo. Eram viscosos e alguns estavam já em putrefacção. Talvez fosse daí que o cheiro viesse. Alguns abriam a boca com os dentes fininhos e afilados e aproximavam-se da sua cara.
Nada fazia para os afastar.
Sabia que vinham de dentro da sua cabeça dalgum lugar onde se criam os medos. E sabia o que fazer. Ficava-lhes indiferente. Acabariam por se cansar e desapareceriam.

Como quando era pequenina e os medos se escondiam em lugares insuspeitos que a principio controlava minuciosamente. Escudava-se debaixo da roupa que a cobria na cama e enovelava-se. Apercebeu-se a pouco e pouco que nada acontecia.
Fingia que não os sentia. Enfrentava-os munido duma força desconhecida. Ignorava-os.
Como agora.

Restava-lhe esperar pela hora do silêncio acordar e os ruídos habituais do elevador que trazia quem tardava e levava quem amanhecia. O carro do lixo, o trânsito a fazer-se grande e a luz que ofusca todos os medos.

Então dormirá.

Tardam sempre as palavras


Tardam sempre as palavras quando delas precisamos.
Secam num lugar qualquer, perdidas em labirintos indesvendáveis.

Na cabeça latejam mudas e no peito debatem-se em fúrias desordenadas. Calam-se na garganta onde não vibram as ondas que lhes dão voz.

Amontoam-se desordenadas, enredadas em si. Caem em catadupa num turbilhão insustentável num poço sem fundo onde nos precipitamos também em tontura desenfreada.

Tanta coisa para dizer e um deserto árido de legendas pela frente… Ou a vista turva, talvez, porque a encandeiam as palavras duma tempestade qualquer.

Só mais tarde, muito mais tarde…
As palavras transbordam de entendimento e já não são necessárias.
Perderam-se no tempo.

Tristeza?

Perguntava-lhe sempre se tinha ficado triste.

Não lhe tolerava os olhos tristes. O brilho inquieto de água prestes a rebentar.
O abandono de corpo e sair para um lugar que não conhecia e temia.

Segurava-a nos braços e não a tinha mais. Desaparecia-lhe.
Ficava-lhe no regaço uma negrura que crescia sem parar.
Ela transbordava, ele definhava. Apequenava-se.
Procurava fronteiras que se extravasavam. Também ele ficava triste.

Que não.
Não tinha sido tristeza.
Tivera de ser assim. Não podiam ser um do outro tanto tempo.
Tanto, podia ser demais.

Tinha saudades. Muitas, ainda!

Lembrou-se das memórias que lhe vieram.
Do homem que sonhou.
Soube porque o guardou naquele instante mágico.
E guardou melhor o segredo que então começou a crescer.

Tristeza?
Bailam-lhe nos olhos duas pérolas. Sem nome.

Amélia


La valse d'Amelie de Yann Tiersen

Podia suspeitar-lhe nos passos miúdos e ligeiros uma forma de viver a vida.
De a encarar sem medos e desequilíbrios mas duma forma segura.
Em pequenos pedaços, pouco a pouco e olhando em frente sem vacilar.
Podia tê-lo feito então quando ainda era tempo e os sonhos cresciam sem prazo marcado.

Nesse tempo corria e olhava outras coisas. Outras que mais longe não se deixavam visitar mas eu teimava em descobrir.

Lembro-lhe a voz de saber todas as coisas.
A voz dos tempos por onde nunca tinha viajado.
E viajava de mão dada nos seus passos pequeninos pelas histórias que não era preciso inventar. Como as que agora conto a quem ainda me quer ouvir.

Sempre me pareceu ser do meu tamanho. Nunca me lembro de ter de levantar a cabeça para a olhar ou de apressar o passo para a acompanhar
Penso que ás vezes me enganava e achava que éramos ambas crianças. Ou mulheres…
Agora acho mesmo que o éramos.

Um dia desapareci-lhe das memórias.
A doçura de sempre continuou-lhe agarrada. O sorriso.
Os mesmos passos. Todos os dias nos mesmos sítios eternamente novos.
Como eu passei a ser.
Deixei de ser a sua menina. Para ser a … Senhora que ela não conhecia.

Quantas vezes lhe agarrei as mãos e procurei os olhos vasculhando sombras ou resquícios de memórias dos tempos que partilhámos! Quantas!?
Em vão.


Acho que te roubei o sorriso, sabes?
Em memória desses tempos. Assim estás sempre comigo.
Mesmo que não tenha aprendido aquilo que trazias dentro de ti.
Guardei-te e todos os dias te devolvo a quem se cruza comigo no sorriso que partilho.
Perdoas-me?

Perdia...

Perdia a cor dos sentimentos. A cor e o sabor que um dia lhes sentira.

Vivera tudo com uma acuidade tísica no limiar quase invisível, imperceptível que a deixava abandonar-se em estados em que ficava perdida de si num universo de fundo caleidoscópico onde as cores e as imagens se desdobravam e as coisas que sentia se multiplicavam indefinidamente duma forma irreal e sempre diferente.

De tantas vezes ficar sem saber de si, partida em cacos que apanhava de mãos feridas e coração magoado, desconheceu-se, morreu. Muitas vezes, repetidamente.


Tinha uma casa de espelhos. De luz. Gostava de a ver reflectida. Gostava que as coisas se olhassem. Fossem outras...Mais.
Não gostava das histórias que os espelhos lhe contavam. Fazia-lhes ouvidos moucos.
Como começou a fazer com tudo.
Sabia que as histórias estavam lá. Mas não tinha de as ouvir.
A dor também existia. Não tinha que a sentir.
O amor? Também. Deixaria que acontecesse e passasse devagarinho.
Não lhe daria confiança.
Acreditar, ter esperança?
Acreditava que tudo acaba um dia. Acreditava que não devia nunca esperar demais. Ou esperar sequer. Assim tudo o que tivesse era bom. E bastar-lhe-ia.

E o que sabia das histórias…. Era que todas tinham princípio e fim.


Um dia acordou assustada com medo de não mais sentir.
Porque sentia agora devagarinho. Com as armas que sem se dar conta tinha vestido. Para não se quebrar nunca mais!

Não alimento saudades

Não alimento saudades. Não sei o que são. Não lhes conheço a cor.
Recuso-me a guardar-lhes espaço dentro de mim.
Ouço-lhes os passos e sei que os ecos ressoam de tal forma que fazem doer a alma de quem as sente.
Por isso as não guardo.
Se as sinto por breves instantes, sacudo-as e lanço-as aos primeiros ventos.
Não me importam a direcção que tomam. Importa-me que se vão.

As memórias, porque ainda recordo, essas ficam.
Sem um querer voltar. Deixo ficar as coisas no sítio onde ficaram em descanso.
Acredito que afinal encontraram o verdadeiro lugar. Se não me acompanharam, tinham uma razão. E descubro a cada dia essa verdade. No espaço que deixaram livre, novas coisas vão crescendo e aprendo a vida de surpresa em surpresa. De braços abertos.

Sem saudade. Nem de ontem nem de amanhã.
Um dia de cada vez, devagarinho. Passo a passo, com a sofreguidão de nada deixar para trás. Só isso.

O Miguel

O Miguel tinha o dom de saber receber as pessoas e a mim encantavam-me as surpresas que ele preparava.

Vivia num prédio antigo numa das ruas estreitas que caminhavam para o castelo. Era preciso subir e perder o fôlego nas escadas de madeira já carcomida para lhe bater á porta. Ali uma imagem esbatida dum santo desconhecido, resgatado ao abandono dava as boas vindas. Abaixo uma prateleira de madeira numa cor inusitada com uma jarra de vidro com velas gastas e flores secas compunha o conjunto.
Em vez da campainha, tocava-se o sino, pequeno enegrecido pelo tempo.
Desta vez, na porta, o Miguel deixara um aviso. Pedia que fosse cuidada e como não pudera convidar os vizinhos que não os perturbasse. Por isso deixava a chave pendurada para poder abrir a porta com cuidado.
Lá dentro já se respirava a azáfama. O Miguel andava perdido no meio dos amigos. E de repente estava ao pé de mim. Era importante que todos se conhecessem.
Cada um devia trazer ao peito uma etiqueta com o nome. E mais importante ainda. Era preciso saber-se se estava sozinho ou acompanhado. Melhor, se era solteiro ou não.
Numa festa em que o Miguel ia apresentar a namorada era importante juntar as pessoas.
Porque ao Miguel não falhavam esses pormenores. Gostava de distribuir quando tinha para dar. Gostava de dar mesmo que não tivesse. Fazia das pequenas coisas, pequenos gestos, mundos impensáveis.
Via-se no seu espaço. Um espaço em que cada canto tinha histórias para contar e segredos guardados. Na poltrona que encontrou despida numa esquina e vestiu de laranja. No louceiro que comprou na feira da ladra e agora é azul-turquesa e se encheu de vasos com salsa, hortelã e outras ervas.
Ou naquela estátua sem cor á espera das suas mãos hábeis, ou não.
Espalhados por toda a casa entre conversa e risos toda a gente se vai conhecendo. Quem vem sozinho já não está. Aqui e ali trocam-se alguns olhares que passam a palavras.
E há etiquetas acasaladas no mesmo peito, nomes de mãos dadas a cruzar a porta ao fim da noite.

Pões-me na gola do casaco o alfinete com a pedra pintada que o Miguel deu a cada uma das mulheres. Sorrio-te. Dás-me a cara. Devo-te um beijo. Era o presente que o Miguel não distribuíra aos homens.

Os nós e os laços

Agora, entendi-te.

Foi preciso perder de vista, para sempre neste espaço, quem eu gostava de visitar, sorrateira, para te perceber.

Lembras-te de me pedir para voltar?
Mesmo que nada fizesse. Mesmo que só ficasse quieta no meu canto.
Só precisavas que me deixasse ser olhada, por ti, de vez em quando?

Porque ás vezes nem são precisas as palavras nem os gestos. Basta um olhar.
Saber que as pessoas de quem gostamos de alguma forma estão presentes.

No espaço branco duma página outrora com vida ficou gravado um nó duma tristeza que não sabia explicar.

Lembrei-me de ti. Talvez tenhas sentido o mesmo.
Porque apesar das distâncias e da frieza das teclas, dos ecrãs que colorimos com palavras, criamos laços. Somos elos de correntes mais fortes que algum dia imaginámos possível.

Quando puder, enquanto puder, vou estar aqui.
Não quero nós de tristeza!

Perder

Sim, ás vezes perdemos só para ganhar um espaço novo.

Ou nem perdemos sequer. Afinal o que julgávamos nosso, não o era.
Uma ilusão temporária, só.
Para vir, para ficar, está o que o tempo vai trazer no espaço do que se julga perdido.

Talvez por isso já não me doa tanto a ideia de perder, de deixar para trás e olhe mais tranquilamente em frente.
Talvez por isso não sonhe longe e depressa e me deixe repousar na calma do tempo.

Embora ás vezes perca, sei também que de vez em quando ganharei.

Há coisas assim

Há coisas assim. Imprevistas. Coisas que nascem do nada e são um mundo.
E vivem-se intensamente. Com sofreguidão.
Coisas onde a sintonia simplesmente acontece.
Onde tudo é fácil.


E no entanto perdem-se.
Devagar, em despedidas que não se pressentem.
Faz-se tudo igual como se nunca houvesse um fim.
Como se a história que tivesse acontecido fosse ainda longa e nada pudesse perturbá-la.

De forma imprevista. Do mundo fica nada.
Há coisas assim.

O abraço

Abraçou-lhe o corpo cansado.
Tomou-o num assalto de rendição feita. Era já seu antes de o ter.
Foi uma entrega anunciada.
Sentiu-a desfalecer pedaço a pedaço e afundar-se em cada canto de si.

Dormia agora. Ganhava forças.

Dizer adeus

Vão-se os dias, meses, anos. Corre o tempo sem pudor.
Vão-se os amigos, os amores, os amantes. Fica o espaço e o desconforto dos vazios com cheiros e restos de gente.
No ar as poeiras da memória teimam em pousar em olhos incautos que deixam escorrer lágrimas fortuitas. De conforto ou despedida.

Algumas vezes uma demência surda e cega invade os espaços que um dia foram a história duma vida que então se esvai... Em vez das saudades na caixinha das memórias há um acordar novo todos os dias para um mundo que não se conhece e não se entende.
Os rostos e os nomes não fazem sentido. Os lugares são lugares apenas.

E a dor, a saudade, fica nos que têm muitos dias, meses, anos ainda pela frente.
Saudade do abraço, do aconchego de quem lhes deu vida e amparo.
Dum olhar, dum sorriso, dum só vislumbre de lucidez, para ao menos dizer adeus.

Presa

 
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Um espaço branco dum opaco surdo como se dum muro se tratasse estende-se na frente dela.
De olhos fechados, tacteia-o com as mãos e depois esticando os braços aventura-se perdendo-se de vista.
Encosta-lhe a face, os ouvidos, pressente-lhe os sons.
Fica-se na música do devir que vem a sonhar e lhe emprenhava os sentidos.
Espera.
Nada acontece.
A semente que transporta dentro de si não dá sinal de vida. Árida seca, acanhada.
Escondida a um canto longe dos espasmos dalguma fecundação.
Como se não pudesse nunca mais criar e nada mais pudesse fazer por si só e só seu.
Presa num vazio que anseia por ser palavra e vida.

Para quando o alívio da libertação?
Voar de novo nas asas das palavras feitas verso, feitas cor, feitas magia…

Nas fendas abertas do seu deserto desenhar-se-ão as linhas da pauta onde a música que só ela conhece vai ser escrita. Dentro de si pulsará uma dança ritmada. Nessa altura tudo acontecerá

Falar das coisas

Ás vezes basta falar das coisas para lhes descobrir os segredos.
Tudo se torna mais fácil e transparente.

Dar voz aos pensamentos desordenados que numa roda-viva se amontoam descontrolados torna-se ás vezes difícil e doloroso.
Saem em tropeções as palavras e ás vezes… Nada sai.
É-se dique em sobrecarga.

Tudo parece rebentar até que se alinham na pauta das frases que compomos, quando em descanso, as depositamos no ouvido de quem confiamos.

Tudo então toma sentido.
O que era indecifrável descodifica-se.
Caminhamos agora ligeiros portadores da chave de todos os códigos.
Seguir as pistas é o que temos que fazer.
Agora mais tranquilos.

Ensina-me

Melhor que grandes discursos cheios de palavras que não sei traduzir diz-me de forma simples o que posso fazer com pequenos gestos no dia a dia para fazer tudo ainda melhor!
Criar os hábitos, construir as rotinas, fazer parecer normais e antigos os gestos novos que a pouco e pouco vão tomando raízes nos comportamentos diários de cada um, de mim e de todos.

Ofício daqueles que como tu, sabem um pouco mais destas coisas.
Sei tão pouco... Ensina-me.
Porque eu ainda sei aprender!

Uma luz

Andava assim há algum tempo.
Um tempo já sem conta.
Transportava dentro de si uma fome que nunca se podia saciar e estava aninhada no peito em ferida aberta.
Arranhava-lhe as entranhas e subia-lhe á garganta que secava e a deixava muda.
As palavras não diziam o que sentia.
E dentro de si tudo rugia num barulho ensurdecedor.
E ensurdecia de tão alto se ouvir.
Um concerto desafinado fazia-a manter-se acordada horas sem fim.

Um abrigo, um qualquer porto de abrigo onde brilhasse a luz que a fizesse entender uma tal desarmonia…

Talvez fosse quanto bastasse.

Dói-me

Caminha já sem a noção das coisas, se ainda hoje as teve.
Deambula num desequilíbrio evidente entre o muro – na valeta mais ou menos profunda que agora corre seca – e a estrada que se aperta no passar dos carros.

Há muito que afoga a vida nos copos que esvazia de seguida enquanto debita monólogos que já ninguém procura entender.
Acaba quando o dinheiro acaba. Depois vai para casa ou para outro destino qualquer.
Ás vezes perde o rumo e percorre distâncias quase impossíveis para tal condição. É o balanço do corpo que determina o destino.

A cabeça viajou para outros mundos. Onde não dá conta de si.
Amanhã não se lembrará de nada. E todos os dias são dias de amnésia.
As memórias são voláteis como o álcool que as consome.
Também por dentro as entranhas se desfazem e despedem da vida que um dia viveu.

Vi-o ainda agora. Tinha-o deixado há horas num outro ponto distante. Julgava-o em casa.
Na verdade deixara de pensar nele.
Estava á beira da estrada de calças abertas, talvez acabado de urinar, virado para a estrada, balançando-se, pegando no pénis desnudado á vista de quem passava.
Indiferente.

Eu que ainda tenho memória, não vou esquecer por muito tempo.
Não o que ele fez. Mas o que o fez chegar aí.

Almas gémeas

Há pessoas com quem tudo é fácil.
Pessoas que nos parecem estar predestinadas.
Com quem tudo flui duma forma espontânea e natural como se viesse escrito desde os primórdios dos tempos.
Gravado em mensagem de língua desconhecida e ancestral, quiçá divina.
São como ecos de nós que sem nos repetirem, entendem e prolongam para lá de nós o que somos.
Fazendo-nos maiores e mais esclarecidos. Alimentam o espírito levando e trazendo sustento de forma graciosa e em eterno retorno.
Essas são raras. Aparecem na nossa vida em ciclos que não se anunciam.

Muitas vezes, cansados da monotonia das gentes que se cruzam nos nossos percursos baixamos os braços e deixamos que os olhos se cerrem. Que os ouvidos e todos os sentidos fiquem anestesiados e nos achemos a vaguear como autómatos.
Cumpridores do duro ofício da vida e nada mais.

Até que um despertar aconteça. Ou um qualquer vibrar, uma qualquer sintonia, um toque, uma simples troca de olhares faça tudo renascer.
As palavras trocadas, continuadas, os mesmos sonhos, a mesma voz. A força que faltava, a luz que era precisa acender… A estrada partilhada.

Almas gémeas... Talvez.

Ainda não

Sabia que voltar ali lhe traria algum desconforto.
Mas a vontade de o fazer crescia a cada momento. Era uma saudade quase sem sentido.
Ainda não estava pronta para visitar os lugares que um dia ocupara com prazer.
Faltavam-lhe os sorrisos que estava habituada a distribuir, as palavras que tinha para dar na hora certa… Sentia-se incompleta.

Fazia-o sorrateira. Em bicos de pés, com mil cuidados.
Apagava a sombra e soprava as pegadas levando os vestígios para sítios desconhecidos.

Não podiam dar por si. Agora não.
Só num futuro qualquer onde houvesse alegria.
Onde tudo o que sentia agora fosse só passado, nada mais.

Gente

Gente diferente, sempre.
Com pátria, nunca.

É como se sente no encolher de ombros e abandono de olhar que lhe vejo.
Nem cá, nem lá é de sitio algum.
Desdobra-se em línguas que aprendeu em retalhos de tempos divididos em espaços partilhados por outros assim.

Reparte com eles a mesma forma de sentir. O mesmo esvaziamento.
O não saber onde pertence afinal.
Atravessam-no culturas que nada têm em comum. Formas de estar e viver que o fazem ser estrangeiro em qualquer lugar.
Eternamente estrangeiro.
As raízes de que lhe falam, procura-as de cada vez que viaja até á terra de seus pais.
Em vão.
Sente-lhes cada vez mais a distância. E a dor de não pertencer a lado algum.

Volta-se como se fosse tudo normal.
Sente-se quase nómada. Sente quase sina.


Apetece-me o abraço com cheiro a casa que penso fazer-lhe falta.
Dói-me que se acomode.
Agarro-lhe a dor e sinto-a também.

Espalho-a por aqui em pinceladas de letras tristes.
Para que se vá.

Confesso que...

Chegava a espantar-me das coisas sempre novas que as conversas de coisas tão simples como as nossas, sempre traziam.

Não, nunca me habituei a que isso acontecesse apesar de tão frequente.
Tinha sempre um sabor a descoberta, a coisa nunca vista ou acontecida.
A coisa rara.
Eram pérolas que guardávamos dentro de nós ou então apressadamente expúnhamos a ilustrar outras coisas que vinham a jeito.
Mostrávamos com vaidade um ao outro e sorriamos com a ternura bordada no olhar.

Era sempre assim.
Em tudo o que acontecia connosco.
Duma forma simples e sem antecipações.
Aprendia contigo a conhecer-me melhor e a perceber o que saia de mim. A dar nome ás coisas. Talvez te acontecesse também a ti.
Não queríamos mais que isso. Era tudo quanto era preciso.

E fora sempre assim. Nunca se soube porquê.
Talvez nem seja preciso saber-se.
As coisas ás vezes são só o que são. E talvez seja melhor deixá-las estar nesse lugar.

Se um dia isso não acontecesse mais talvez deixássemos morrer as conversas e ficassem só as memórias…

Mas não acredito que uma magia tão forte que fazia as palavras bailar á nossa frente construindo sorrisos onde havia lágrimas, alimentando esperança quando já não se acreditava, pudesse um dia morrer.

Por isso sei que me vou admirar ainda por muito tempo.
Pelo tempo de seres meu amigo.
Pelo tempo de partilhares as tuas palavras comigo.

Até um dia...

Vive agora no avesso das coisas.
Adormecido no cotão das costuras duma vida que lhe sabe a coisa nenhuma.
Esqueceu o sabor das vontades e perdeu os desejos que nasciam em si.
Diz-se sereno mas sabe que o que sente não é paz mas falta de alimento. Ou de um qualquer tempero que por falta de mão não se juntou ao que tem.
Deambula no fio dos dias num equilíbrio instável entre tudo e nada.
Não sabe por quanto tempo, talvez para sempre.
Não se lembra há quanto tempo. Talvez desde sempre.
E a quietude instala-se a pouco e pouco por todo o corpo agora anestesiado.

Até um dia o inesperado acontecer e uma primavera ousada rebentar dentro de si.
Primeiro em murmúrios.
Depois em cânticos fortes que não poderá calar.
E dançará mesmo que nunca tenha aprendido

Saudades

O calor fazia as horas andarem devagar, aninharem-se em cada recanto e colarem-se em gotas preguiçosas que teimavam em não fazer-se desaparecer.

Era um tempo mole, invertebrado que deixava a visão turva e a boca seca.

Nunca as cores pareceram tão pálidas e as vontades vieram nesta câmara lenta de movimentos sem sabor.

E a saudade da chuva e das cores do arco-íris tatuaram-se a fogo na memória.

Um rio

Subiu-lhe ao peito numa golfada como se fosse uma onda.
Num ímpeto imprevisto, vindo não sabia de onde.
Como se não houvesse mais tempo nem espaço para tanto.

No peito alagado ficou-lhe o sabor a dor antiga e teve medo do tempo que estava para vir.
Já desfolhara as folhas desse livro ainda por ler, demasiadas vezes.

Uma a uma, deixou cair as lágrimas.
Esvaziava um rio tumultuoso que agora saltava as margens.

O sonho



Uma coreografia de Benvindo Fonseca apresentada ao vivo pelo grupo musical Madredeus e a companhia de dança Lisboa Ballet Comteporâneo.
Filmado em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, em 29 de junho de 2006
O Sonho Letra e Música de Pedro Ayres Magalhães

Ali

Ali toda a verdade não passava de ilusão. Talvez por isso tudo parecia tão perfeito.

Os espaços ficavam preservados. Ninguém os invadia. Continuava o seu caminho sozinho, vagueava pelas ruas como sempre quis sem ninguém ao seu lado.
E ali… Ali encontrava á distância das teclas com quem falar da solidão que gostava de viver, das prisões de que fugia, dos receios de intimidade. E dos medos que o povoavam.
E comungava em união com outros também até um qualquer desligar de botão.

E voltar ao conforto, á segurança de estar só ele no mundo real.
Por momentos era outro noutra dimensão que tinha o tempo que lhe queria dar.
Sempre só esse.

Ali toda a verdade não passava de ilusão. Talvez por isso tudo parecia tão perfeito.

Voar

Era preciso, talvez, morrer para poder respirar melhor.
Esvaziar todo o ar dos pulmões, poder enfim levitar.
Deixar que tudo passasse a nada e construir assim dum novo fôlego.
Dum ar novo, surpreendentemente novo.

Fê-lo então e prosseguiu o caminho.
Atrás de si as pegadas suavizavam-se.
Voava por fim. O sonho tornara-se real.
Sorveu todo o ar que pôde e voou mais alto.

Soube então que podia voar quando sonhasse e sonhar quando voasse.

Rosa


Classificados- Rosa

Escrevi o teu nome na linha-férrea,
para que o pudesses ler.
Mas tu passaste a cem à hora
e sem tempo para o ver.
Fiz outra tentativa
e escrevi no alcatrão.
Mas nessa tosca avenida,
não passa o teu avião.

Tens um nome delicado,
não se pode escrever.
É preciso entrar em ti
para te poder conhecer.
Não é nome que se diga,
não é nome de mulher.
É da cor do teu vestido,
é do teu jeito de ser.

Em poucos dias toda a cidade,
estava pintada de Rosa.
E por todos os lugares,
lia-se o teu nome em prosa.
Mas de ti nem um sinal,
nem sequer uma notícia.
A tua ausência prolongada
era já caso de polícia.

Tens um nome delicado,
não se pode escrever.
É preciso entrar em ti
para te poder conhecer.
Não é nome que se diga,
não é nome de mulher.
É da cor do teu vestido,
é do teu jeito de ser.

Tentei só mais uma vez,
escrever-te na terra molhada.
E da noite para o dia,
eras uma semente germinada

Ah! As palavras...

O duplo sentido das palavras...
As palavras que se perdem, as que se não dizem, os silêncios que ficam por fazer-se.
As entrelinhas que nascem nas coisas simples e directas...

As palavras são mais que frutos. São semente pródiga e ás vezes de natureza incerta.

Belas e sedutoras, dizes bem. Encantadoras de mentes, por isso nos perdemos nelas e por elas. Mas sem elas cairiam as rotas que nos atravessam e perdidos nos gestos e nos olhares, no tacto e nos cheiros, cairíamos zonzos na embriaguez dos sentidos.
Elas dão razão ás coisas. E ligam-nos, dão-nos sentido.

Ah! As palavras...

O mar

E o cheiro do mar invadiu a carruagem, forte e intenso. O riso dos miudos, carregados de baldes e bolas, os rostos bronzeados, cabelos ainda molhados e os restos de praia nos corpos meio nús veio com ele.

Ah e o cansaço... O cansaço que se abrigava nas pálpebras, espreguiçava-se agora e fechava os olhos d'alguns. Encostavam-se os corpos e o sono instalava-se.

Depois, ficou o silencio quando se foram. O mar deixou-se ficar viagem fora.

Num canto de mim

Há um canto de mim que ás vezes quer saber de ti.
Procura-te nas pistas das conversas, deixadas de forma insuspeita.
E é assim que te sei.
Sei-te debaixo da chuva que daqui espreito através dos vidros que me separam de tudo, de ti também na beira mar que também aqui tenho.
Imagino-te a correr praia fora e roupa colada ao corpo como as memórias que de ti conservo.

Deixei por ler os livros de que recordo os títulos e os filmes que me enchem o imaginário nos diálogos que nasciam entre nós. Um dia partirei á descoberta.

Por agora, estou tranquila. Sinto que quando partiste, o fizeste para eu encontrar o meu lugar e tu o teu.
Porque cada um tem o seu. E nem sempre é aquele que pensa ter alcançado.

Boa viagem.

A tua pequena dor


Rui Veloso- A tua pequena dor

A tua pequena dor
Quase nem sequer te dói
É só um ligeiro ardor
Que não mata mas que mói

É uma dor pequenina
Quase como se não fosse
E como uma tangerina
Tem um sumo agridoce

De onde vem essa dor
Se a causa não se vê
Se não é por desamor
Então é uma dor de quê?

Não exponhas essa dor
É preciosa é só tua
Não a mostres tem pudor
É o lado oculto da lua

Não é vicio nem costume
Deve ser inquietação
Não a nada que a arrume
Dentro do teu coração

Talvez seja a dor de ser
Só o sente que a tem
Ou será a dor de ver
É dor demais

Certo é ser a dor de quem
Não se dá por satisfeito
Não a mates guarda bem
Guardada no fundo do peito!

Á espera...

Tudo lhe acontecia de forma inesperada. Nos momentos em que repousava tranquilamente e nada esperava.

Lembrava-se dos tempos em que perseguia e procurava ansiosa em cada gesto e olhar a resposta para os seus desejos. E de se atirar sem rede para situações de que saía magoada porque queria um “não sei quê”. Procurava uma qualquer resposta para um vazio que sentia e não queria.
Sentava-se no banco da vida de olhos perscrutadores em riste pescando tudo e todos na sua rede, preenchendo com nadas um nada cada vez maior e mais dorido.

Só quando se levantou e andou por si. Olhou em volta e viu o que nunca tinha visto. Se deixou maravilhar, chorar e rir, tudo começou a acontecer.
Ou pelo menos começou a percebê-lo. Tudo lhe vinha calmamente parar ao lado. Como nunca supusera. Os sonhos deixavam de o ser. Construía-os reais de formas que nunca imaginara. Dos dedos escorriam-lhe agora imagens e palavras que não eram já pesadelos. Um novo mundo acontecia.

Porque deixara de esperar.

Mais alto...

Sobem-lhe em ondas as lágrimas que não pode já conter.
Longe de todos espraia a dor que sente dentro de si.
Precisa do espaço que ela lhe rouba a cada instante que passa.
Pressente outras que virão.
Apronta-lhes o canto que sabe, delas.
No peito que inspira e expira com dificuldade estes sentires.

Julgava-se longe de mágoas quando sentira a planura invadi-la.
Sentira-se forte e inexpugnável. Era frágil, nada mais.

Tudo volta a ser como dantes. Como carne em ferida aberta.
Dorida como já não se lembrava. Nem sonhara voltar a ser.

Renuncia ao que quer porque quer melhor e não sabe o que é.
Dulcilena deixa-se abater quando quer ainda lutar.
E morre na paz fétida em que se deixa cair.

Debate-se em inutilidades.
Fazer ou não fazer. Falar ou não falar.
A vontade é uma. È o coração que lha dita.
Deixa-se levar pela razão e sofre.
Deixa-se ficar e nada faz.
A não ser deixar o sofrimento crescer a cada minuto, cada vez mais.

Nunca saberá o que fazer nem o que deixar falar.
Se o coração, se a razão.

Mais alto fala a dor!
E consome-se.

E os homens...

Casara muitas vezes e de todos se descasara. Não com a leveza que as palavras têm, mas com o peso que apesar de tudo encerram.
Casou de todas as vezes para sempre e descasou para nunca mais. Fazia as coisas todas assim. De forma definitiva.
Por mais dor ou tempo de agrura punha-lhes ponto final.
Não lhes virava as costas. Não se escondia delas embora ás vezes lhe apetecesse fazê-lo. Afundava-se então num estado de miséria indescritível que sacudia cansada após algum tempo. Era das memórias desse tempo que fugia para abraçar outras formas de estar com quem lho merecia. Com ela própria também.
Não acolhia ódios, passava-lhes ao lado e não lhes dava ouvidos. Preferia deixar dentro de si os amores e largava os desamores em lugares perdidos e sem memória.
Os homens faziam parte da sua construção enquanto mulher.
Era agora o que fizeram dela pelo bem e pelo mal. Era a soma do que de si fizeram e do que sempre fora. A todos devia da forma que dera. Também neles se perdera da forma que se encontrara.
Ah! Os homens…
Uma parte da vida de Dulcilena. A das paixões e dos desencantos.
Dos encontros e desencontros. Das almas gémeas e das que nem por isso…

Em cada homem viveu uma vida diferente e conheceu-se doutra forma.
Foi tantas mulheres como quantos homens teve. E mais seria se mais tivesse.
Era essa imprevisibilidade que ela descobria e de certa forma fascinava quem a tinha. Descobria-se sempre outra. Nunca sendo a primeira ou a última.
Todas as vezes e sempre eram como a primeira. A descobrir, a explorar, a sondar por território em constante renovação.
Não soube nunca mais que ninguém sobre os homens. Também eles eram, como ela, diferentes e imprevisíveis. Nunca deixou de acreditar na felicidade com um companheiro. Por isso continuava a casar. Um dia… Talvez fosse para sempre.
Dulcilena ficava bem com os “sempre” que ia tendo. Achava que “sempre” era enquanto durasse. E valesse a pena. E aprendesse de si e dos outros. O importante era não perder a esperança e a vontade de ir mais além de si própria.

Talvez

Talvez se cruzem de novo por aí num sítio qualquer.
Ou talvez não.
Talvez seja mesmo melhor assim.
Nunca mais se encontrarem.
Fazerem de conta que nunca se viram e até se apaixonaram.
Fazerem de conta que os beijos que deram não eram de amor.
Que quando se abraçavam, não era para acalentar a doçura dum sentir que crescia sem barreiras e sem medidas...

Talvez seja melhor inventar que não houve passado. Que a vida é só presente e futuro. E que nada se sabe ainda. E que só agora se começa a construção. E tudo até agora é um buraco imenso. E que daqui para a frente tudo é possível. E que daqui para traz é ilusão.

Talvez seja melhor inventar que não há passado.

Naquele Verão

Naquele Verão não saiu de casa.
O mar não a chamou e o calor não se fez sentir como nos últimos anos. Corria uma aragem diferente quase fria. Precisava do aconchego da casa e deixava-se ficar aninhada sem precisar doutro qualquer pretexto.

Hibernava fora de prazo. De mangas arregaçadas mas de braços caídos porque lhe faltavam as forças. No fundo hibernar era isso mesmo. Deixar-se estar. Á procura duma energia latente num espaço invisível mas presente. Para ser maior num tempo que estava para vir. Maior e mais forte.

Haveria outros Verões. O mar continuaria lá. O calor voltaria.

Mesmo que ela não estivesse, ficavam as pegadas que nenhum vento conseguia soprar apesar de ténues. Porque quando hibernava era mais ela e despenhava-se em ecos de si num mundo que florescia mesmo em Invernos desconcertados

O ódio necessário

O livro estava na prateleira mesmo ao nível da vista.
O título levava-me á viagem que nunca soube fazer. Agarrei nele, comprei-o e devorei-o.
Não pela sede do ódio que não conhecia, mas pela vontade de perceber porquê.
Porque teremos de odiar para avançar e não somente perdoar?
A pouco e pouco percebi que o ódio de que se falava era a ponte para o distanciamento e a salvaguarda do amor-próprio.
Não era o ódio de morte de que ouvia falar mas aquela pequena dose que tira de cima de nós todas as culpas. A assumpção de todos os erros e falhas.

Sabia que me afastava verdadeiramente das pessoas quando deixava de lhes suportar o cheiro e a náusea se entranhava em mim. Quando toda a graça deixava de ter piada e a presença me angustiava. E era tudo quanto sentia.

Nunca soube ir para além e afastava-me silenciosamente sem lhes desejar mal algum. Sabia que se estivessem bem eu também estaria.
Era assim que pensava e isso bastava-me.
Até um dia isso deixar de ser suficiente e precisar de algo mais para me afastar verdadeiramente de quem me fazia mal.
Mas nunca o ódio. Nunca o aprendera. Não sabia viver com ele. Nem mesmo o que era. Achava sempre que odiar era matar alguém cá dentro e sentir a culpa desse crime. Que trazia dores maiores e não atenuava em nada as que tinha até então.
E deixava-me encher de culpas de sentimentos de frustração e de coisas mal cumpridas. Do sentimento de falhar sempre. Por minha causa. Porque deixava que os outros me fizessem sentir assim. Anulava-me e perdia-me de mim.

Naquele dia, ao ver o livro, ocorreu-me que precisava de odiar. De sentir mais por mim, de cuidar de mim. E o ódio traria a resposta.
O ódio necessário. Não mais que isso.
Para enfim cumprir o luto.

O ódio necessário, Jeammet, Nicole, Colecção Margens, Editorial Estampa.

O exercício


De Rodrigo Leão

Desejo antigo

A morte era um desejo antigo que lhe habitava as entranhas.

A vida era um ofício difícil do qual não percebia ainda as regras.

Sabia da morte e do que sentiria. Um dia quase por lá ficou.
Conheceu-lhe o rosto e a paz que dele emanava. Sentiu-se serenar por fim.

Mas tinha prazos e compromissos que a faziam ficar embora sentindo o desejo de partir.
Cumpria dia a dia, passo a passo, a rotina que os tempos lhe traziam.
Valiam-lhe os sorrisos e os abraços de quem amava e só por eles não se deixava mergulhar no desejo que crescia cada vez mais forte.

Mas quanta vontade de se deixar ir! E tanta coisa ainda a fazer!

Na dura aprendizagem da vida, perdia-se em caminhos de tristeza e amargura que disfarçava (e sabia tão bem fazê-lo!) nos sorrisos que plantava no rosto.

Um dia, não muito longe, deixará que o desejo a possua e o sorriso que agora força, virá ligeiro e aberto.
Porque afinal, a morte é um desejo antigo que lhe habita as entranhas.

Com verdade e sem omissões

Fala-me de ti se quiseres e quando quiseres. Sabes que te escuto embora ás vezes pareça viajar.
Só te peço uma coisa: que sejas tu, inteiro. Com verdade e sem omissões.

Não precisas que gostem de ti se não o fizeres tu mesmo. De inventar outras vidas se a tua não cumpriu os sonhos que dela fizeste.
É melhor que gostem de ti pelo que és, com todos os teus defeitos e atavios. Com tudo o que a vida te deu e ensinou.
Preferível a gostarem de alguém que nem tu próprio reconheces e em quem tropeças a cada instante.
Porque nos contos e enredos que fabricas te enrolas e sufocas, levando ao fundo contigo aqueles que te amam.
E só há uma versão na tua vida que vale a pena e é real. Todas as outras são de usar e deitar fora com os pedaços quebrados dos corações que as viveram.
Enfrentar a realidade e mostrá-la quando apetece ser outro, é um acto de coragem que muitos não suportam e por isso fantasiam.

Deixa-me então ouvir-te de dentro de ti. Quem sabe não te direi as palavras que precisas de ouvir. Se não o fizeres, nunca o saberás. Continuarás perdido num mundo em que as máscaras acabam coladas nos rostos, escondendo corações que fazem só o que sabem em ritmos descompassados e já nada conhecem do que é sentir.

Fala-me de ti se quiseres e quando quiseres. Sabes que te escuto embora ás vezes pareça viajar.
Só te peço uma coisa: que sejas tu, inteiro. Com verdade e sem omissões.

Ashes and Snow


Feather to Fire
Gregory Colbert usou camaras fotográficas e de filmar para explorar interacções extraordinárias entre animais e pessoas. A sua exposição, Ashes ang Snow, consiste em mais de 50 trabalhos fotográficos de grande escala, um filme de 60 minutos e dois filmes "haikus" de 9 minutos. Este excerto é intitulado "Feather to Fire" e é narrado em 3 linguas por Laurence Fishburne (Inglês), Ken Watanabe (Japonês) e Enrique Rocha (Espanhol).

O Sol dentro de nós

Nunca seria de propósito, porque não tinha essa cor na alma.
Se alguma vez magoasse alguém, fá-lo-ia sem o pretender.
Nunca apontou as armas, se algum dia as teve, para alguém.

Conhecia quem o fizesse e só se sentisse bem assim, despejando veneno em quem fosse que se aproximasse. Nunca lhes entendera as razões e sempre lhas procurara.
Achava sempre que no fundo de cada um haviam sementes que por não serem regadas, não brotaram. Que um dia com um pouco de sol e cuidados seriam a sede e a fome saciada de corações em tormenta e fariam a paz.

Se alguma vez a atingiam, ficava presa na dor que sufocava dentro dela. Sabia que não sabiam de si.

Prosseguia o seu caminho na esperança de um dia o sol nascer dentro de todos.

Também

Também haverá quem sinta que afinal não valeram de nada as quezílias, lembras-te?
Aquelas que infernizavam os dias e afastavam as possibilidades de fazer coisas melhores... Sei disso.
Porque se lamentam sempre os impossíveis e continua-se o rame-rame inalterável das horas.

E os amores... Vivam-se até aos extremos, até na morte!

Arrumações

...
Chegaram finalmente os caixotes que faltavam. As prateleiras que comprara numa loja de móveis em segunda mão estavam já instaladas numa das paredes do quarto que começava a ser prolongamento de si. Aqui e ali um ou outro objecto faziam-na sentir aconchegada. Bases de copos que começara a juntar, algumas garrafas de bebidas que experimentava com flores secas serviam-lhe de adornos. As datas e pequenas notas ficavam escritas nos pedaços vazios das etiquetas. Nascia um museu de memórias num território em que tudo era trazido á vida.
Começou a arrumar tudo com método. Deixava de propósito alguns espaços vazios. Contava enchê-los com o tempo, a seu tempo.
Olhou com enlevo a sua vida. Estava toda ali. Desempacotada e exposta, pronta a ser revivida. Passada ao papel. Porque agora queria entendê-la. Perceber porque tudo tinha acontecido. Como tudo tinha sido possível. Queria dentro de si encontrar o princípio e o fim. Perceber o meio. Assumir-se sem culpas e sem juízos. Ser inteira, porque precisava de o ser. E sobretudo entender o significado da sua vida. Até ali!
Inspirou profundamente de olhos fechados, abriu-os e com eles os braços. Dirigiu-se á janela que dava para a rua e deixou-se ficar a absorver a energia do sol. Ficou aí por algum tempo.
...

O segredo

Embrulhara há muito dentro de si um segredo. Apertara-o bem apertado e só de vez em quando desapertava os laços que o prendiam e sorvia as memórias com lágrimas ou sorrisos assim fossem as imagens que via ou os cheiros que sentisse.
Fez dela muito do que é hoje!
Seria outra qualquer se não tivesse vivido tal aventura. E não queria vivê-la de novo. Quando a pressentia nos outros sentia-se ligada e queria ser luz e ser guia se a quisessem assim. Queria dar o que não teve mas que agora tinha: saber de dor e vida.
Tinha sido há muito tempo e parecia-lhe já ali. Como se não pudesse nunca deixar de ter sido. E pertencesse a todos os tempos da sua vida. Porque em todos se via reflectida. Como se vivesse num espelho em que só ás vezes se mirasse e que quando acontecesse todas as imagens que não tivera tempo para ver lá estivessem á sua espera. Em silêncio, mas vivas.

Ele apareceu-lhe um dia. Falador, vivo, alegre, chamava a atenção de todos.
Tinha cabelo alourado aos caracóis pequeninos. Falava emocionado do que lhe acontecera. Era a Revolução dos Cravos em marcha. Agora era já Setembro mas ainda fervia tudo. Demais.
Dulcilena olhava-o com espanto e devoção. Aquele fervor já a incendiava.
Os olhares cruzaram-se e nunca mais se desviaram.
Foi nessa noite e nas outras que as histórias que ele contava embebedaram Dulcilena e quem o ouvia.
Dulcilena amou-o nas palavras e ficou cativa do seu coração. Ele também. Todos o souberam e se afastaram. Foi um amor febril como o dos tempos que corriam. Um amor sem regras e sem limites.
No ventre de Dulcilena cresceu o amor de Setembro sem ela se dar conta.
Soube-o tarde de mais. E era cedo ainda para tal sementeira.
Era muito nova. Ele também.
Nunca mais viu o jovem guerreiro. Não lhe deu a saber que fruto dera, tanto amor naquela época. A ele competia lutar. A ela…Acalentar e amadurecer o fruto que embalava.
Foi quando decidiu partir. Quando outros voltavam á terra-mãe, ela partia para outras bandas transportando consigo a semente que a denunciaria se ficasse.
Encontrou trabalho no outro lado do país. “Vou estudar”.
Ia ser mãe. Coisa linda de aprender!
E foi. Dum rapaz. Deu-lhe o nome do pai.
Os outros nomes que vieram com ele, deram-lhes os médicos. Eram muitos e estranhos.
A única coisa que entendeu é que alguma coisa muito errada tinha acontecido com o seu filho.
Que não seria como o pai, nunca. Como outra criança também não. Um filho perfeito… Talvez não o tivesse merecido, talvez tivesse feito alguma coisa errada, talvez…
E castigou-se durante todo o tempo que teve o seu menino naquela caixa de vidro. E chorou e zangou-se com o mundo. E gritou e quis morrer, ali!
E aquela criança indefesa chorava sem parar, tremia em convulsões e ela não podia fazer nada.
Dulcilena sentiu que o mundo se tinha virado contra ela. Tudo a tratava mal. Agora que finalmente e apesar de tudo esperava um sorriso, um bebe lindo a mamar, umas mãos pequeninas a procura-la, alguém a precisar e alguém a quem saber dar… E tudo lhe era tirado.
Tinha então 17 anos.

Quando fez 21 levou o filho a enterrar. Depois de anos de sofrimento. Dias e noites em hospitais de muita angustia e dor.
Tempos á espera do primeiro sorriso. Da primeira palavra. E nada!

Olhava de lado os outros bebes e pensava como seria bom o seu fazer metade, só metade!
Olhava as outras mães e queria ter metade dos sorrisos e alegrias. Só metade!
Nada mais!

E quando o levou a enterrar sozinha, chorou de tanta dor acumulada.
Chorou sem saber que sentir mais.
Se culpa, se alívio…
Se dor, se remorso…
Chorou até secar.
Foi então que fechou e guardou esse segredo por não saber o que lhe fazer.

O café

Desceu á rua na ânsia dum café quente. Hábito velho que ainda não pretendia perder.
Por aqui ainda não se entendia. Não conhecia as ruas nem os lugares.
Sentou-se no primeiro sítio que lhe cheirou a café. Fez bem. Sentiu-o.
Estava habituada a obedecer a impulsos.
Era pequeno. Três ou quatro pessoas estavam espalhadas pelas mesas. Umas liam, outras olhavam pelas vidraças o movimento na rua apertada. Uma música morna enchia o espaço.
Pediu o café e pegou numa revista que encontrou em cima duma mesa. Desfolhou-a sem a ver. Saboreou o momento.
O café com o sabor desigual acordou-a. Precisou do caderninho que trazia sempre consigo. Procurou-o no saco enorme que a acompanhava sempre. Era o seu “armazém”, como gostava de lhe chamar. Apetecia-lhe deitar coisas ao papel.
Afinal o tempo era de arrumações. E o papel era o suporte mágico

Porque aos sonhos e ás palavras que lhes dão forma não lhes basta a voz ou os gestos que as adornam. Precisa de lhes apalpar as formas quando as deita no papel. Sabe-as distintas e delatoras de estados de espírito que ás vezes é mascarado pelo hábil controlo vocal e gestual.
Na ponta dos dedos sai-lhe a verdade das coisas sem fronteiras ou censuras. Um tremor, um recuo, uma letra mais ampla ou mais miúda. Tudo repleto dum significado que se perde se não se mostra.
Ela estende-se aí. É inteira quando aí se acomoda. Nesse espaço não há lugar para esconderijos ou subterfúgios. Vê-se e revê-se. E nunca se perde porque pode sempre encontrar-se na palavra que fica presa ao papel que a contem e abraça.
Por isso só depois passa ao portátil as palavras feitas historias, agora amansadas pela tinta e pela rugosidade das folhas…

Viaja até ao princípio dos princípios.

Pedro e Inês


Uma coreografia de Olga Roriz

Fica ás vezes...

E fica ás vezes perdida num espaço que lhe deixa o medo e o desconforto de não ter certezas.

Deixa de ser quem é e não se reconhece nos passos balançantes. Como se o caminho ou a visão ficassem deturpadas e só lhe restasse a tontura e uma infinita náusea de se tornar na sombra distorcida de si.

São as lancinantes guinadas da luz do dia e das noites que se sucedem que lhe dizem ainda que está de pé.
Acerta o passo ao ritmo das vozes que carrega e entoa baixinho uma melodia onde embala os desconfortos.

Segue então, de novo, o seu caminho.

O quarto 905

Não tinha a lógica dos números que conhecia doutros quartos noutros sítios. Mas tinha uma outra qualquer. Podia ser o quinto quarto dum conjunto de nove, em que as camas eram de uma só pessoa. Assim ficava rodeada de gente sozinha, sem companhia. Pelo menos era uma hipótese. Apostou nessa. Sentiu-se acompanhada.
Despejou em cima da cama tudo o que trazia e abriu as gavetas da cómoda, começou a arrumar tudo metodicamente. Deu por si á procura de estantes. Os livros que iam chegar precisavam de respirar num espaço adequado. Teria de comprar e pôr ali enquanto não encontrasse um sítio adequado para se poder esticar á vontade.
Ficou tudo cheio num instante. Em cima da cama, na colcha agora amarrotada ficaram as marcas de tudo quanto agora se escondera. Ainda havia dois ou três sacos cheios mas não havia pressa. O cansaço apoderara-se dela. Enroscou-se debaixo da colcha que puxou até ao pescoço por culpa dum súbito arrepio e deixou-se dormir mesmo vestida.

Acordou e sentiu a cara molhada. Tinha-se babado. Adormecera de boca aberta. A maldita alergia aos pós que andavam pelo ar taparam-lhe o nariz e não a deixavam respirar em condições. Além da baba tinha a marca da roupa da cama. Sentia-se enrugada. Espreguiçou-se e a súbita vontade de urinar levou-a á casa de banho que ainda não tinha visto a preceito. Apeteceu-lhe o banho. Correu a cortina do chuveiro e desejou uma banheira. Contentou-se com um banho em pé encostada á parede ainda fria deixando-se amolecer pela água em jorro forte e quente. Acabou por se sentar e deixar ficar apertando as pernas com a cabeça em cima dos joelhos. Choveram-lhe as recordações da viagem e do que havia ainda a fazer.

Arrependida

Combinámos encontrar-nos, senti-lhe a urgência na voz. Sabia que alguma coisa não estava bem. Apressei-me. Encontrei-a já á minha espera numa postura impaciente. Senti-a triste, faltava-lhe o brilho que sempre lhe conheci. Mal me deixou falar. Pedia-me ajuda, que a ouvisse…

Não sabia já o que fazia e quando fazia acabava por achar que não o deveria ter feito. Como agora.
Estava já arrependida e olhava-me em súplica como se eu pudesse fazer voltar o tempo atrás. Arrependida de se ter denunciado.
Dissera-lhe que não entendia como ter-lhe dito das saudades dele o tinha feito perdê-lo.
Como sentir a falta dos risos, das cumplicidades, das horas perdidas em conversas sem rumos, a tinha feito ficar á deriva num mar em que já não navegava com ela.
Do vazio imenso que tinha ficado no lugar que antes enchiam de coisas a eito. Um vazio árido onde faltavam razões.

Uma lágrima teimosa escorre-lhe cara abaixo. Disfarça-a com um trejeito que lhe conheço. Digo-lhe que a deixe correr. Precisa de o fazer. Continua.

Acabou tudo duma forma abrupta como se de repente um precipício se tivesse aberto e tivesse engolido o que era de nós.
Ainda acordo a pensar que tudo pode ser um pesadelo, que pode ser mais um intervalo com uma causa que um dia entenderei e de que não me dei conta.

Fixa o olhar na distância como se a resposta pudesse vir daí, dum qualquer lugar. Deixo-a esperar. Sei que o tempo lhas dará um dia. Mesmo que não sejam as que espera. Virão.

Medo de futurar

Conhecia-se a escrever, sempre o fizera, saía-lhe de dentro como a voz naturalmente. Umas vezes devagar ou em surdina, outras em catadupa ou doutra forma qualquer. Não as continha. Deixava-as livres como o pensamento o era dentro de si. Mergulhava-as no papel enroladas nas letras que aprendera a juntar e fazia-as sinfonia.

Eram palavras sem tempo.
Ás vezes de futuro. Dizia-me ás vezes com os olhos abertos de espanto que “futurava”. Porque o sentia e quase tinha medo de adivinhar tempos para vir.
E quando ás vezes pisava de novo as pegadas que um dia escrevera num “dejá vu” vivo e real, perguntava-se até que ponto saberia de si no tempo que estava a crescer.

E ás vezes trocava-lhe as voltas. Escondia-se, baixava a cabeça, fechava os olhos com medo de olhar e deixava-se ficar a ver com os olhos do coração. Só. Guiada pela emoção faria um percurso diferente…

E mesmo assim via-se sempre uma vez mais num sítio onde já tinha estado com quem já tinha falado e a viver o que tinha vivido.

Deixava então de escrever e fechava as portas ao pensamento. Deixava o cansaço abater-se sobre si e enterrava-se em sonos profundos de que não recordava os sonhos.

Procurava-lhe os sorrisos que já não lhe iluminavam o rosto que então era baço e sem vida como se não houvesse propósito em nada. O corpo mantinha-se direito á custa de grande esforço. Tudo lhe parecia pesar e o andar reflectia essa dificuldade.

Porque tinha medo de “futurar”.

...Dizia que a amava!

Não, nunca lhe deu flores, nem no gesto, nem na intenção.
E mesmo assim, dizia que a amava!
Por muito tempo, ela, não lho achou necessário. Amava-o sem essas coisas. Perdoava-lhe essas ausências. E outras também.

Esquecia pequenos nadas que ela sempre lembrava. Lembrava nos mimos que lhe deixava. E sorria a esconder a lágrima que vinha teimosa quando sentia que mais uma vez era esquecida.
E mesmo assim dizia que a amava!

Faltava mesmo quando lhe pedia para vir. Mesmo quando era muito preciso. Tinha sempre coisas muito mais importantes.
E mesmo assim dizia que a amava!

E ela acreditava e dava o tempo todo do mundo.
Nos momentos mais importantes não esteve. Nos mais tristes, não esteve. Nos mais felizes, não esteve. E quando estava, já se ia embora.
E mesmo assim, dizia que a amava!

E ela sorria e vivia no pouco que tinha até um dia desistir.
E mesmo assim doeu. Porque o amava!

Dulcilena

“Dulcilena nasceu num dia de chuva e trovoada. Era um tempo zangado que fazia gemer as portas que a recebia. Lá fora não se ouviam os gritos que a mãe tentava abafar. Fazia-o o tempo por ela.
Nem parecia que na véspera estivera um dia lindo de sol, se bem que abafado...
A mãe beijara o Senhor carregando-a na barriga.
Beijara-O com os mesmos lábios que o pai rebentara com uma palmada que lhe dera no dia em que Dulcilena fora concebida.
Chegara a casa embriagado como sempre. Com sede de mulher. Atirou-se ao corpo estendido e cansado já adormecido na cama que ás vezes partilhava com a mãe de Dulcilena.
Ela gemeu, sacudiu-o com o corpo, com as poucas forças que tinha, até se deixar vencer. Deixou que ele a penetrasse para não ter de lhe suportar o cheiro nauseabundo de muitas bebedeiras por curar.
Depois de freneticamente se saciar, atira-se para o lado e adormece ao som do próprio ronco.
A mãe levantou-se devagar, lavou-se e aninhou-se junto dum dos seus filhos, fruto doutras relações.
Ele deu por falta dela a meio da noite. Chamou-a aos berros. Nunca pelo nome. Por outros nomes. Da rua. Dos que ninguém gosta de ouvir.
Para que não acorde as crianças a mãe de Dulcilena levanta-se apressada tropeçando em quase tudo. Pára na mão aberta que lhe é lançada em fúria pelo companheiro. O lábio abre e o sangue corre.
Nesse mês o sangue da vida não escorrerá. Ficará dentro de si.
Dulcilena chorou o mínimo necessário. Comprovou-se o seu bem-estar e viu-se que era um bebé calmo. Mamou só de manhã cedo aos primeiros raios de sol.
Deu tempo á mãe para descansar e ao pai para dormir e curar a bebedeira sem que incomodasse ninguém.
Foi registada um mês mais tarde e nunca soube a data correcta do seu nascimento. A mãe dizia uma, o registo outra. Celebrava a do registo.
O nome? Era antigo. Não se conhecia igual. Dulce de doce, porque o era. Helena porque a mãe lhe sonhava força e inteligência, a via lutadora. Uma Helena de Tróia. Como ela lembrava dos livros que lia. Via-a doce e forte. Como o é o amor e a vida.”

O meu livro e eu

Medo

Tinha medos como toda a gente, mas ninguém lhos adivinhava porque nos olhos e na voz se via só coragem. E todos se enrolavam nela. Fora sempre assim.
Era o escudo de quem não o tinha. Com ela sentiam-se protegidos. Mas Dulcilena carregava com ela todos os medos do mundo em lugares insuspeitos.
Figura frágil mas de porte seguro, transparente nada parecia ocultar por não ter onde. E no entanto tinha.
Lembrava-se do medo a nascer em carantonhas de gigantes com sons de tambores e gaitas com vozes e sons que não entendia. De ser pequena e gritar pelo pai de que só lembra a boca escancarada num riso frenético pela sua figura de medo.
De querer fugir e ver escadas com degraus que pareciam montanhas. E os gigantes e a falta de ar de espaço de liberdade, de abraço e colo... E não saber como mas encontrar-se debaixo da mesa tapado por panos que a cobriam. E o choro que não parava e quase a sufocava.
Lá fora os gritos, os risos, para onde foi a miúda?
E não chorar para não darem conta dela. Fazer-se forte. Desaparecer. Ser Dulcilena por inteiro. Vencer o medo que vira nascer.

Encontraram-na já tarde, enroscada em si a dormir. A cara suja tinha a marca das lágrimas que deitara ao medo. As últimas. Ninguém lhe veria mais. De medo só para dentro deitaria lágrimas. Ninguém responderia ás suas lágrimas com risos, nunca mais.
Não o soube nessa altura. Soube-o mais tarde, pela vida fora.

A partida

Parte agora decidida. Para trás fica a vida empacotada, arrumada. Tudo fica num lugar que demorara a encontrar mas encontrara pouso por fim. Na casa tudo ficou coberto por lençóis brancos para se resguardar do pó do tempo. As coisas pareciam-lhe mortas. Estavam apenas adormecidas á espera de novos acordares. Apaga as luzes depois de fechar cuidadosamente todas as janelas.
Olha a lista que fizera de tudo quanto queria levar: enorme.
Maior é a lista do que fica para trás e sabe que vai sentir a falta.
Mas apetece despojar-se das coisas, até das memórias. Iniciar uma história nova num sítio novo como se nascesse do nada mas transportando consigo já a sabedoria dos tempos… Porque a dor já a tinha amansado, já a tinha feito ser quem era e mesmo sem os adornos não se despia de si e caminhava carregada apesar de querer e desejar-se leve nesta partida.
Parte decidida porque quer chegar e começar tudo como se nada houvesse para trás.
Carrega a roupa, leve para o verão que sabe muito quente. Alguns casacos para as noites frias em que se imagina a escrever os sonhos que lhe crescem nas pontas dos dedos, numa varanda qualquer…
Não, ninguém lhe confirmara ainda o pouso, seria agora um quarto duma pensão qualquer, e uma janela para um beco vadio com ou sem estrelas por testemunhas, não importa como será.
Não carrega livros de leitura, só três ou quatro fotos, as dos filhos e netos, acabarão amarrotadas e talvez debotadas, não importa. No portátil carrega todas as memórias que lhe são vitais: as cores, as formas, os rostos que gosta de captar.
Para o trabalho vai munida. Não sabe o que vai encontrar ou não por lá. E não quer perder tempo a procurar. É a maior parte da bagagem. Material de trabalho. E contactos. Todos os que pode arranjar.
Quer tempo para si. Só assim o pode ter. Não perdendo tempo com coisas inúteis, com coisas que arrecadou já com o tempo.
Olhou mais uma e outra vez para trás. Não com saudades já. Para ter a certeza de que tudo era como se lembrava. Para ter a certeza que não esqueceria e que sempre que quisesse se iria lembrar com precisão.
Olhou para o relógio. Entrou no táxi. Pediu que a levasse ao aeroporto.
Deixou que uma lágrima caísse, secou-a com a ponta do indicador direito, olhou em frente. Durante a viagem não disse palavra.
Ninguém foi com ela ao aeroporto. Foi ela que assim quis. Despediu-se do taxista pegou na sua bagagem e dirigiu-se ao balcão de embarque.
Daí a uma hora e trinta e cinco minutos partia.

O tempo dos amantes

O laranja era a cor: a cor das horas que anseiam eternidade por serem tão belas e quase irreais.
No laranja das manhãs a acordar e das tardes a cair, a beleza espreguiçava-se e estendia-se no céu alargando-se á terra, deixando-nos a vontade de ficar aí presos para sempre. Era o tempo entre a pressa e o vagar, entre o partir e o ficar. O instante mágico que se quer para sempre, rodando sobre si próprio, sem promessas de passado ou futuro num constante presente.
O tempo de amar. O tempo dos amantes.

O livro vermelho

Espantava-se quando via o sorriso abrir-se depois de desfolharem sem sentido e lógica alguma aquele livro pesadão, cheio de letras que não contava histórias e onde não viviam figuras.
Nos livros em que desfolhava uma a uma as páginas, o sorriso, o medo, o espanto e até a lágrima tinham letras gordas que juntas contavam aventuras e mostravam as personagens, ora tristes, ora alegres.
Tudo fazia sentido e sabia bem ouvir ou ler.
Era uma viagem que se fazia do princípio ao fim com ligeiros intervalos para algumas perguntas ou para resolver alguns receios.
Não podia entender como os grandes procuravam aquele livro tamanho e procuravam com sofreguidão determinada página e se saciavam com pouca coisa, largando-o depois. Como se contivesse uma qualquer poção mágica.
Só um dia, quando no meio duma história foi visitado por uma palavra estranha, lhe entendeu o valor.
"Saiu da toca aturdido...", rezava a frase e quis saber melhor.
Levou-a a mãe ao livro que encerrava o mistério. Desfolharam como tinha visto fazer e encontraram a palavra: Aturdido ou seja aturdimento, o que equivalia a perturbação dos sentidos ou atordoar. E o jogo continuava.
Atordoar seria fazer perder os sentidos, entontecer.
E podia continuar.
E foi assim que aprendeu a jogar no livro grande e vermelho de folhas amareladas. E a sorrir também.
Nunca mais deixou um livro por ler por não o entender. Por não perceber para que servia. Se via sorrisos. Queria sorrir também.

O cavaleiro andante

Chegou qual cavaleiro andante, numa mota que para ela era gigante. Todos o seguiram com o olhar. Olhares que ele já sabia e saboreava.
Desceu da mota com elegância e olhou sobranceiramente quem o fitava de olhos e boca aberta. Gozou o momento.
Dulcilena fez de conta que não o vira. Continuou olhando o seu mar, deitando-lhe olhares pelo canto dos olhos castanhos.
Ele reparou nela de imediato. Metida num vestido preto de alças que se lhe colava ao corpo parecia pertencer ali desde todos os tempos. Como se não fosse de ninguém. Mas dali. Daquele tempo e espaço.
Á sua volta foram-se juntando pessoas que lhe admiravam a máquina. Respondia-lhes com sorrisos pois não lhes entendia as palavras. Adivinhava o que diziam pelas expressões. Mas já não lhe importavam.
Era Dulcilena que ele via.
Aproximou-se devagar e perguntou-lhe num português tímido, fala inglês?
Respondeu-lhe num inglês correcto que sim. E a conversa floresceu.
E continuou florindo pelos dias e noites que se seguiram pois ele não a abandonou mais. Adiou planos de viagem e prometeu voltar para ela um dia.

Largou a vida que tinha, os amores e desamores e voltou com a sua mota para os braços de Dulcilena que o esperou como lhe prometera.
Foi quando Dulcilena o começou a conhecer. E sofreu.
Não de amor. Porque não se deve sofrer quando se ama.
O amor deve fazer as coisas simples. Nunca complicadas. Deve trazer entendimento.
Alegria, não tristeza. Conforto e nunca desconforto.
Confiança, ternura e tanta coisa boa!
Não! O amor não é uma coisa má!
E foi o avesso do amor que Dulcilena descobriu. E tantas vezes o quis por do direito que se cansou.
E o seu cavaleiro… Partiu para outras cavalgadas. Porque ela assim quis.
E assim teve de ser

Começar de novo


Jane Monheit
Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Ter me rebelado
Ter me debatido
Ter me machucado
Ter sobrevivido
Ter virado a mesa
Ter me conhecido
Ter-me socorrido

Começar de novo
E só contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Sem as tuas garras
Sempre tão seguras
Sem o teu fantasma
Sem tua moldura
Sem tuas escoras
Sem o teu domínio
Sem tuas esporas
Sem o teu fascínio

Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Já ter te esquecido.

Pairar

Que a faz pairar?
Que a faz ficar no entretanto do tempo?

Sabe as decisões a tomar e o caminho a seguir e deixa-se ficar ancorada á poeira dos dias passados. Como se pertencesse só lá. E fosse a névoa que se desprende do levantar das coisas que se deixam adormecer.
Paira. E não quer parar e ser outra coisa.
Deixa que algo se faça por si num lado de si que desconhece.
Porque nunca soube pairar. E desgasta-se. Em pó cinzento de nada.
Num buraco enorme a crescer sem rédeas num canto obscuro de si.

Um dia, um vento norte ou sul levantá-la -á para paragens distantes de que conhece o cheiro e o desejo.
Até lá pairará. Por não saber fazer mais nada.

Saudade

Evanescence-Missing

Já há muito que o não estreitava nos braços e não lhe sentia o cheiro.
A ausência tinha uma dor que lhe moía a cada instante crescendo no espaço que habitava a distância alongada entre os dois, tornando-se insustentável.
Essa dor ténue mas sempre presente, cravava-lhe a vivo na memória os tempos passados e as coisas vividas juntos, tinha agora a cor da saudade e era dela que vivia e na sua luz que se banhava projectando-se em sombra no dia a dia.
Não sabia quem era ele agora. Podia ser outras coisas que a memória não pudera construir porque se ficara no tempo em que só vivera as que possuía.
E era por esse tempo e por essa razão que o amara e continuava a amar.
Não podia adivinhar que agora era outro de que não tinha ideia ou lembrança.
A vida passara por ele nos espaços em que sozinho vivera outras vidas longe dela e se por vezes era ainda o homem que as memórias lhe traziam, por outras era um homem novo que desconhecia.
Não era já o homem que ainda espera e sempre amou.

As dores… As que sentira parecem-lhe agora inúteis.

Faz de conta...

Faz de conta que tem outros amores quando só o ama a ele;
Faz de conta que está bem sózinha quando só está bem na sua companhia;
Faz de conta que nunca se lembra dele, quando conta todos os minutos da sua ausência e todos lhe parecem séculos;
Faz de conta que lhe é indiferente e afinal tudo tem mais cor e vida a seu lado;
Faz de conta que é forte e esvai-se de tão fraca ser;
Em tudo faz de conta quando está com ele.

Quando ele se vai solta-se o dique que lhe prende o rio, feito caudal imenso, das lágrimas que lhe lavam os olhos, vindas não se sabe de onde, cheios de saudades e tristezas.

Porque ela não é o que faz de conta. Porque só é assim para que ele esteja bem e não tenha de fazer de conta, nunca.

As lágrimas que lhe bailam nos olhos não a deixam ver claro, toldam-lhe a vista e a razão.

Aranhando

Cola-se ás coisas por linhas finíssimas, invisíveis de tão transparentes e inodoras, como se de aranha se tratasse e uma teia criasse.
Num sítio qualquer e ao que encontra, seja o que for.
Lança só. Cola-se só. Para não se deixar cair.
Ainda não.

O rendilhado que tece não é perfeito, como ela não é também. Mas não desiste ainda.
Um dia de tão frágil tecer desistirá. Sabe-o desde sempre.
Antes ainda da rotura da teia desarmónica que cria.

Não quer ser abandonada. Prefere abandonar.
Prefere deixar que ser deixada. Doer-lhe-á menos. Sabe disso.
Esconde de quem lhe apara a teia, os medos, as sombras, os pesadelos que a atormentam, com máscaras que lhe enfeitam com sorrisos uma face que já desconhece há muito.
Nos espelhos que lhe enfeitam os espaços por onde se move só aproveita a luz e os reflexos que ama.
Não se confronta. Não se reflecte. Não se reconheceria.
E teria medo do que veria.
Mas estão lá. Sempre. Porque um dia o fará.
Para se despedir e saber de quem se despede e do quê.
Talvez então seja sugada a outra dimensão para lá do espelho, qual Alice do País das Maravilhas, e seja aquela que ninguém sonhou, neste mundo que nunca foi o seu.
Então não será mau desistir despedindo-se assim, quando tiver coragem!

Até lá, vê-la-ão tranquila, porque ela o sabe ser, qual aranha laboriosa embora imperfeita, tecendo sem parar.
A máscara?
Está sempre lá. Ninguém lha queira tirar. Já é parte dela.
Deixem-na sorrir, mesmo que chore por dentro.
Essa será a mistura perfeita para a cola na sua construção.

The promise


The Promise - Tracy Chapman
If you wait for me then
I'll come for you
Although I've travelled far
I always hold a place for you in my hear
tIf you think of me
If you miss
me once in a while
Then I'll return to you
I'll return and fill that space in your heart
Remembering
Your touch
Your kiss
Your warm embrace
I'll find my way back to you
If you'll be waiting
If you dream of me
Like I dream of you
In a place that's warm and dark
In a place where I can feel the beating of your heart
Remembering
Your touch
Your kiss
Your warm embrace
I'll find my way back to you
If you'll be waiting
I've longed for you
And I have desired
To see your face, your smile
To be with you wherever you are
It would feel so good to be
In your arms
Where all my journeys end
You can make a promise
If it's one that you can keep
I vow to come for you
If you'll wait for me
Say you'll hold a place for me in your heart.

Sabes...?

Sabes, amor? Ás vezes apetece-me desistir.

Eu sei. Sinto-o. Ás vezes também a mim me apetece.

E como fazes para não o fazer? Porque e como persistes e avanças?

Por ti, por mim, pelo amor que nos une, por tanta coisa boa que sei possível fazermos.
Pelos sonhos e alegrias que lhes dão vida…

E… Basta-te isso? Tens todas essas certezas?

Não. Nunca bastou. Por isso ás vezes também quero desistir. Mas insisto em caminhar e só desistirei no último dia…

Último dia? Como sabes tu qual será o dia certo, o último?

Penso no último dia das nossas vidas, dentro de mim.

Sim, entendo. Mas…

Não. Não penses amor que te desapareço. Serei eu que desapareço de mim!

Quero-te tanto! Morreria nesse instante também.

Em descompasso

Quando os pensamentos andam em desalinho com as palavras e fazem viagens em que quase não se encontram, a boca tarda em dizer o que o coração já disse.
E depois… tudo já passou e o tempo que resta não é tempo de coisa nenhuma porque deixou de o ser num vácuo de velocidades às avessas.
Como se em câmara lenta as palavras deslizassem num pensamento que há muito violou todos os recordes de velocidade.
Um atraso e um desacerto que não tem conta instalam-se.
As contas da vida amontoam-se num sítio perdido, labiríntico.

Não há matemático que conheça tal ciência. Que a desbrave e controle.
No espaço selvagem de tanta coisa que se enrosca na ilusão dum dia ser posta a descoberto há batalhas surdas e miméticas.


Batalhas ilusórias e sem sentido.
Batalhas dum tempo perdido.


As memórias vão-se, instalando-se num qualquer lugar perdido.


Fica a sensação de que se viveu o que não se tem nem nunca se teve.
Não há silêncios, ou pausas que arrumem os descompassos quando estes são assim!



São arritmias no coração da vida. Ás vezes fatais

Encostámos ás boxes

De há tempos para cá andava a sentir um barulho e um cheiro esquisito. Ou era o carburador ou era outra coisa qualquer. Soube agora que era falta de água. Teve de encostar ás boxes.
Sempre se desleixou com os sinais. Desde que andasse e tivesse combustível... Andaria. Podia morrer-lhe nas mãos, mas seguiria no que tinha de fazer. E tinha sempre muito.
Juntos iam a todo o lado Riam, cantavam e choravam juntos também.
Não aguentou, como eu, a última viagem.
Deixou que avançasses nas minhas viagens até me deixar seca e dizerem-me um dia que tinha de parar e ser reparada. Não voltaria a casa.
Ele voltou. Com ele vieram ver-me duas vezes. Depois, assim como eu, encostou ás boxes. Estamos os dois em recuperação.
Quando um de nós estiver melhor, o outro senti-lo-á e partiremos de novo em viagens a sonhar e a viver.
Deixaremos de estar encostados e de olhar com olhos de quem só vê tristezas e riremos com a alegria de antes. Com sinceridade.
Voltaremos á vida. A outra. Um novo ciclo.

E...

...Só espero, amor, que tenhas morrido tantas vezes nos meus braços como eu morri nos teus.
E que os meus lábios, amor, te trouxessem a paixão á vida que me fizeste ter.
É só o que quero!

Podia ser por acaso...

Podia ser por acaso. Ou acontecer uma só vez na vida. E parar aí.
Ser ponto final.
Nem virgula, nem reticência, muito menos, ponto de admiração.
Um só descontrole ocasional. Uma borbulha a mais, num nariz já acostumado.
Mas não. Acontecia sempre, da mesma forma como se fosse vital.
Como se fosse mágico e também raro. E, era-o!
Sentia-o assim. Fazia-a sentir-se assim. Uma caixinha poderosa, dum valor incalculável.

Tinha a prova disso consigo.
Um sorriso enorme cresceu-lhe na cara que brilhou pelo dia fora...

Uma flor especial a desabrochar em alturas de dor e perda. Algo que nasce quando algo se vai.
Como se nunca pudesse haver lugar para ausências.
E a semente estivesse sempre pronta a germinar. Especialmente nessas alturas.
Sempre que perdia alguém, acontecia.

O filho era prova disso. Fora a "troca" do irmão perdido. Nove meses depois e em honra do santo que na altura se celebrava, dava fruto a magia que transportava em si, a quem deu o nome de António.

O que a principio parecia um acaso, provou ser um facto assumido.
Acontecia sempre. Duma forma precisa, agora já esperada e saboreadoa como se duma graça se tratasse.
E era-o!

Quando...

Quando não sei de ti e te procuro em desespero.
Quando os meus sentidos alerta nada deixam escapar e mesmo assim não te sinto...
Imagino-te num lugar que desconheço mas sei cheio de perigos e medos que lá guardo para não os ver nem viver.

E sei de coisas que ninguém inventou.
E crescem histórias feitas de palavras com raízes de pavores que só nos pesadelos se enfrentam.
A minha vida deixa de o ser aqui e transforma-se presença num reino onde só o mal existe.

Temo por ti.

Vêem-me à memória as mensagens que me deixas. Os bilhetes que encontro dobrados entre a roupa que procuro para vestir ou debaixo da almofada onde deito a cabeça cansada ao fim do dia.
E os sorrisos que vêm com as memórias vão-se na água que as lágrimas quando caem sem cessar apagam sem piedade.

Temo por nós. Pela inevitabilidade de mundos assim, num tempo qualquer.

Um sorriso na ponta da lágrima

Estava triste.
Podia estar doutra forma tambem.
Deixou no entanto que lhe caisse uma lágrima.

Ele pressentiu-o. Estás bem?

Esboçou um leve sorriso.
Não estremeças, tenho um sorriso na ponta das lágrimas,
lembraste?

Das tuas palavras nascem versos.
Apetecem-me poemas feitos de ti.

Um dia fê-lo.

Na ponta das lágrimas, cresceu-lhe um sorriso maior.

A nódoa

Caiu-lhe pesada numa forma irregular.
De tão forte, estragava o feitio que se perdia na prega agora torcida. A flor no jardim que lhe bordava a saia perdia o brilho e as pétalas sufocavam escondidas num remendo sem cor ali plantado abruptamente.

Virou-se rapidamente, tentou esconder o rubor que lhe subiu á cara e a vergonha que se plantara na saia.

Um olhar, fora só isso. Conhecia-o de algum lado.

Às vezes eram os gestos que lhe chamavam a atenção. Outras a voz.
Podia ser uma palavra, numa frase qualquer. Ou um cheiro. Sim, uma nesga de aroma numa memória olfactiva a espreguiçar-se.
Qualquer uma dessas coisas a podia despertar dos passados.

Mas fora o olhar. De espanto.
Não contava com ela ali. Por isso se embrulhou e tropeçou nos gestos. Por isso lhe dançou o copo de forma abrupta lançando-se em queda, amparada só pela saia rodada que ela trazia.

Procurou uma casa de banho, um sítio onde pudesse apagar a mancha e dar vida á flor que murchava escondida. Atrás dela, um braço estendido pedia-lhe que parasse e em surdina dizia, desculpa.

Da saboneteira tirou um resto que ainda havia, misturou-o com alguma água, levantou a saia, deixando as pernas desnudadas e tentou, esfregando com alguma suavidade retirar aquela coisa incómoda. Tentou uma, duas, três vezes. Sem sucesso.
Permanecia intacta como se não quisesse deixar de ser vista nunca mais.
Secou a saia no secador de mãos. Ajeitou as pregas.
No jardim, havia agora uma flor com memória. De cor diferente.

Do lado de fora, ele esperava-a com outra flor retirada á pressa dum arranjo de mesa, uma rosa vermelha e um sorriso envergonhado.

Aceitou-lhe as desculpas. Colheram memórias juntos.