Devagarinho

Chegaram-lhe ao fim as forças. Deixou-se abater.
Doía-lhe o corpo de tanta labuta. Numa dor que a levava para lá de si.
Só o cansaço se fazia sentir.

Nem sabia já o que a levara ali. Como tudo principiara.
Até as memórias se sufocavam nas dores que o corpo gritava.
Apetecia-lhe deixar-se estar enterrada no buraco que o que sentia lhe fizera.
E deixar-se afundar. Que o peso que carregava era tamanho!

Sentia-se esvair, despedaçar-se num corpo que preferia não sentir.
Não pediu ajuda. Não o conseguia fazer.
Despedira-se há muito das esperanças que um dia alimentara.

Talvez alguém a visse desvanecer. Ou talvez não.

Não havia vontade do que viesse.
Abandonara-se.

Quando sentiu de novo não reconheceu o que podia ser.
O sono que a levara ainda lhe turvava a razão do que era.

Alguém que passou e não ficou indiferente.
Alguém que dormira já noites assim. Num gesto sem nome trouxe-lhe de volta o sentir.
Devagarinho.

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